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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Príncipe do escracho



Sérgio Maggio

A Brasília do começo dos anos 1970 não cabia mais em Vicente Pereira, que chegou à nova capital do país aos 12 anos, acompanhando a família na construção da cidade. Desde os 18 anos, o jovem já fazia teatro com Silvia Orthoff para escapulir do tédio cultural, que pairava sobre a sede do poder da ditadura militar. Daqui, do lugar que chamava ironicamente de Arizona, mirava um mundo cheio de possibilidades para excitar a veia artística que brotava num jorro natural da vida. O conflito com a cidade chegou a ser registrado no romance inacabado Memórias de um sodomita esotérico, cujo trecho é revelado na biografia Isso é besteirol, de Luís Francisco Wasilewski, que sai pela Coleção Aplauso (Imprensa Oficial).
— Se existe circunstância, ela se chama Brasília. Se há um lugar que é maior que os destinos particulares, é Brasília. Uma espécie de decifra-me ou te devoro em concreto armado. No Arizona, Centro-Oeste. Não era uma cidade. Era uma sucessão de porquês. Por que existo? Por que sou assim? Por que me desquitei? Por que me candidatei? Por que vim parar nessa merda de lugar? Por que essa arquitetura é tão desconfortável? Por que é tão linda? Por que de tão longe parece um colar de marcassita imitando o céu? Contato de terceiro grau? Por que essa paisagem é tão maior, tão maior? Por que é invisível para tanta gente? Quase ninguém te percebe? Ninguém te quer? Pois aqui está o seu único amante. Tao. Tao te ama. Eu te amo.
A cabeça cheia de porquês de Vicente Pereira era como ogiva que o lançaria no meio do movimento da contracultura, que ganhava força, a partir de questionamentos comportamentais, no auge da ditadura militar. No Rio de Janeiro, ele se tornaria um protagonista voraz do desbunde que achincalhou com “a família, a tradição e a propriedade”, base moral da ditadura militar. Vicente Pereira pegou carona na revolução estética de Os Secos & Molhados. A convite de Ney Matogrosso, foi fazer o visagismo do grupo. — Eles se conheceram em Brasília. No início, um antipatizava com o outro. Chegavam a evitar um possível encontro. Até que, numa noite, ambos andando pela W3 (Sul) viram que era inevitável. Quando caminhavam, houve um acidente entre dois carros. A partir desse momento, o destino selou uma amizade profunda entre Ney e Vicente. Quando Ney foi para São Paulo e houve o estouro do grupo musical Secos & Molhados, ele decidiu chamar dois amigos de Brasília. Eram eles Vicente Pereira e Márcio Oberlander, conta Luis Francisco.
Começava então o embrião para o surgimento de uma cena da comédia nacional, mais tarde estigmatizada como besteirol, que marcou profundamente a capital fluminense, especialmente na década de 1980, pegando o vácuo da redemocratização do país. Ney produziu Ladies na madrugada, espetáculo que estreou em 1974, em São Paulo, com texto final de Mauro Rasi e tendo Vicente Pereira no elenco. A montagem revelou o jovem argentino Patrício Bisso, que tinha saído do seu país por conta da repressão sexual.
— Ladies já trazia algumas características do que viria a ser o besteirol, entre as quais, atores vestidos de mulheres. É importante lembrar que, na época, o travestimento estava presente em diversas manifestações artísticas, tais como o próprio Secos & Molhados e o grupo de teatro-dança Dzi Croquettes, observa o autor.
Vicente Pereira produziu intensamente a partir desse encontro, sobretudo, numa parceria longeva com Mauro Rasi. Trocava figurinhas com o pessoal do Asdrubal Trouxe o Trombone e frequentava o Posto 9 em Ipanema. Até chegar a escrever As 1001 encarnações de Pompeu Toledo, em parceria com Rasi, em 1980, viveu, com intensidade, o chamado desbunde. Essa montagem, aliás, resultou no nascimento do rótulo besteirol, pelas mãos do crítico teatral Macksen Luiz, que comparou a peça a “uma divertida bobagem, que deve conseguir grande sucesso de público”. Foi autor de uma dramaturgia que, segundo depoimento de Amir Haddad no livro, ainda necessita de uma revisão crítica, principalmente pelo humor ferino colocado diante de fatos cotidianos. Solidão, a comédia, que estreou em 1990, com o próprio Vicente Pereira em cena, e foi remontada em 1991, num grande sucesso de Diogo Vilela, trouxe essa universalidade sobre o olhar sensível e pontual do criador. — Acabei de rever a peça no Rio. É tudo muito atual. As discussões sobre solidão nos diversos quadros são fortes e impactam a plateia, revela Luis Francisco.


Gargalhadas da dor

Vicente Pereira está enterrado no Campo da Esperança. O autor morreu em 19 de setembro de 1993, em consequência de complicações causadas pelo vírus HIV. Enfrentou a doença num tempo em que era sinônimo de sentença de morte. À época companheiro do ator Carlos Augusto Strazzer, que também morreu de Aids, Vicente foi tratado pela família em Brasília. A sobrinha Marina Oliveira lembra que ele se negou a fazer o tratamento. Não quis tomar as pesadas medicações de AZT. Mesmo debilitado não perdeu o humor e o dom de fazer graça da vida.
— Muitas vezes visitamos, eu e meus avós, a casa dos dois no Rio. Strazzer teve uma sobrevida maior porque fez o tratamento, mas morreu primeiro que Vicente. Tudo foi muito rápido com ele, questão de meses, lembra Marina Oliveira, que é jornalista.
Vicente não pôde ver, por exemplo, a consagração de Diogo Vilela em Solidão, a comédia, em Brasília. Já estava internado no hospital, acometido pelas doenças oportunistas que lhe tiraram a vida sem nunca ter lhe arrancando, como lembra Marina, a capacidade de rir da dor. — Eu devo muito a Vicente Pereira. Na verdade, toda uma geração de autores, atores e espectadores deve muito a ele. De certa forma, foi ele quem ensinou o teatro brasileiro a rir novamente depois dos anos de chumbo. Um riso amargo, afetuoso, pontilhava seus diálogos e havia um olhar generoso que envolvia suas personagens, porque em última análise, Vicente Pereira gostava de gente, escreveu Miguel Falabella em crônica publicada após a morte do amigo.

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