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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Os ipês dos desejos



Sérgio Maggio


Eu vi ipês brancos, amarelos e roxos feitos em papel crepom. As flores tinham caules de finos fios elétricos coloridos, fixados a galhos secos do cerrado. Em cada uma dessas árvores artificiais, estavam pendurados desejos de crianças em papeletes presos a barbantes. Gabriel pede para ser um grande jogador de futebol do Flamengo. Felipe clama por um futuro de riqueza e fartura, com direito a helicóptero particular. Amada quer ter sucesso a fim de poder comprar uma bicicleta para a futura filha. Caio sonha com a fama de cantor de pagode.
Os ipês dos desejos brotam na Escola Parque da 313/314 Sul. Estão no pátio da instituição, que semeia o lúdico em crianças do ensino público. Ao tocar em cada um desses papeletes, tive a convicção de quanto eu amo a Escola Parque — seja na 313 Sul, seja na 210 Norte. É uma dádiva Brasília abrigar esse sonho de educação, gestado por Anísio Teixeira e preservado em meio a tantas turbulências políticas que abalaram sucessivos governos do GDF.
Na 313/314 Sul, onde transito com mais frequência, a fantasia está estampada nos murais. Ali, são expostos os trabalhos das crianças. Sempre me emociono vendo cada um. Outro dia, fiquei diante de pedaços de madeira, nos quais meninos e meninas pintaram monumentos de Brasília. No traço de um deles, a Ponte JK virou uma minhoquinha singela. Em outro, as torres gêmeas do Congresso Nacional ganharam um ligeiro rebolado.
Mais um em especial me emocionou. Era uma ciranda de bonecos de papéis, que revelava a aprendizagem sobre a diversidade humana. Um tinha óculos escuros; outro não possuía uma perna ou um braço. Um era negro. Outro, loiro. Essa corrente de diferentes avançava por toda a escola da 313/314 Sul. Ao caminhar e olhar para aquela arte, percebia a oportunidade dessas crianças de se tornarem adultos mais respeitosos e tolerantes.
Algumas vezes desejei ser criança vendo os meninos e meninas da Escola Parque da 313/314 Sul correrem livres pelo pátio. Um dia, em especial, queria ter 8 ou 9 anos para cair na dança numa discoteca montada no Teatro de Arena. Com zelo de pais, os professores decoram o local, com globo de luz, CDs e levaram um equipamento de DJ. Não tenho como descrever aquela felicidade porque era uma energia indiscritível.
Em muitos fim de tarde, vi crianças ficarem tristes porque estava na hora de ir para casa. Numa escola feita para aprender sonhando, meninos e meninas brincam com desejos. Daniel e sua turma se apresentavam no pátio, cantando e dançando para quem aparecesse. Querem ser famosos. Ele deseja ir para Nova York. As fantasias voam pelos seus olhos. Quem pode segurar esse menino?
Eu deposito toda a fé do mundo diante desses ipês do desejo. Tenho certeza que, um dia, quando esses meninos forem vitoriosos na vida vão reservar a passagem pela Escola Parque como um dos capítulos mais lindos da infância. Agora, eu aproveito e preparo o meu papelete dos sonhos para afixar nos galhos dessa árvore tão frutífera:
“Desejo que este e os próximos governos zelem pelas Escolas Parques como se estivessem pondo num colo um bebê recém-nascido. Que cuide, amamente, faça carinho e beije a face de cada uma dessas Escolas Parques, protegendo-as sempre dos algozes.”

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