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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O sol na cabeça de Bombom


Eu, Jones, Mara e Allice Bombom na foto de Chico Leitão

Sérgio Maggio


Na última noite em que vi Allice Bombom, ela estava com um sol da meia-noite sobre a cabeça. No rosto radiante, havia uma peruca alaranjada que iluminava a roupa de tons soturnos.Era quase uma miragem de deserto, uma cena de filme. Não houve então como economizar no elogio.

— Nossa, você está linda, um escândalo comesse sol laranja sobre a cabeça?

— É verdade, hoje eu exagerei no colesterol. Estou toda trabalhada na gema de ovo, lança na hora.


Gargalhadas saltaram-se sobre a mesa. É sempre assim: por onde Allice Bombom passa fica um rastro de alegria, uma felicidade de instante.Parece que o clima fica mais leve. As pessoas sorriem quando ela se aproxima e gentilmente oferece:


— Aceita uma glicose aí? —Ah, não obrigada, mas eu estou de dieta, querida, diz uma moça.

— Que nada, meu amor, todo mundo tem o corpo de cebola. As pessoas olham e choram muito, solta Allice.


Quem pode ficar sério diante das tiradas de Allice Bombom? Doce, educadíssima e com o humor na ponta da língua, ela não aborda, é abordada. Quando passa, parece que as pessoas
se agitam para que ela chegue com essa energia capaz de apaziguar até os clássicos desentendimentos em mesa de bar. Não conheço ninguém, mas imagino que, em algum dia, alguém ofereceu os bombons de Allice como se fossem flores, amaciando a briga de amor.

Os saquinhos de trufas e brigadeiros caseiros que pulam da cesta à la ChapeuzinhoVermelho fazem parte da crônica da noite brasiliense.Eu vi gente, que não poderia passar a um quilômetro do bafômetro sem ser detido, comer as iguarias como se estivesse entornando tubinhos de Epocler.As guloseimas de Allice Bombom devem ter evitado muito acidente
no trânsito. São todas trabalhadas no carinho lá no apartamento de Taguatinga, onde ela se desmonta do glamour da noite e vai para a cozinha lidar com latas de leite condensado, chocolate em pó e bandejas de morango.

Entrar na casa de Allice Bombom deve ser um sonho alimentado pelos voyeurs. Imagina como não deve ser o guarda-roupa? Cada noite ela arrasa na pista. Parece nunca repetir um modelito.
Os sapatos deveriam ser tombados como patrimônio da noite brasiliense e as perucas já devem ter ultrapassado a paleta de cores existente no universo. Acho que Allice Bombom deve ter inventado alguma tonalidade só para ela, tipo castanho-lobo-guará, loiro-cagaita ou bege -Charlene.

Única, ela não cabe mais no rótulo de drag queen. É doceira, batalhadora, empresária, atriz, radialista, animadora, hostess, performática, conselheira, personalidade da cidade,nossa dama da noite,que adocica avida de tantos diariamente.É cidadã discriminada pelos incultos da vida e que educa, ensinando que o ser humano está no campo da diversidade: é branco,é negro, éhomem, é mulher, é tudo misturado. Ah, é também a pessoa mais fotografada de Brasília e as
imagens são espalhadas pelo mundo como os dizeres “Fui a Brasília e me lembrei de você”.

Um comentário:

Chico Oliveira disse...

Brasília, é Allice BOMBOM, leve, vibrante, solta...é própria FESTA! doce...
Chico Oliveira