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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Feliz aniversário, Teca!


Sérgio Maggio
Adoro ter datas na cabeça. Faz o dia nascer mais especial. Hoje, dia 20 de janeiro, ganhou um destaque em minha trajetória desde que ganhei uma amiga de nome Teca. Quem me deu Teca foi Brasília, essa terra é pródiga em enlaçar as pessoas nas outras. Quem chega aqui sozinho sem ter uma referência sequer de amizade ou de parentesco sabe o quanto a cidade pode ser generosa nas aproximações. O chamego começa logo quando os sotaques e os costumes regionais são tirados da bagagem. Ao contrário de capitais onde segregam os migrantes, Brasília os acolhe com receptividade. Claro que isso depende muito da disponibilidade de cada visitante.

Há gente que aterrissa com saudades demais da terra natal e não consegue nem olhar para o horizonte que a acolhe. Vixe, aí parece que Brasília vira uma madrasta. A seca fica mais seca, aumenta a distância do mar e a arquitetura se transforma num mostro que devora. Muitos que padeciam desse mal de adaptação acabam dando um jeito de pegar a estrada de volta. Certa vez, um mestre místico, aqui habitam muitos, disse que Brasília escolhe quem vai e quem fica. Ouvi isso sem retrucar porque, certa feita, quando estava de mala e cuia para cair de novo nos dengos da Bahia, fui pego pelo calcanhar.
Para quem vem de coração aberto, o caminho é o aconchego nos apartamentos e nas casas de amigos adquiridos. Lembro da primeira vez que fui em um e saí de lá com uma sensação maior de pertencimento. Aí a gente aprende que só se conhece Brasília de verdade quando se toma uma cerveja na casa do outro. De encontro em encontro, emendam-se laços, alguns de nó cego. Como é bom ter um amigo — daquele tipo que você pode ligar a qualquer hora da madrugada.
Ai de quem mora num lugar e não tem uma alma viva com que se possa desabafar as piores coisas. Aquelas que você não tem coragem de dizer a qualquer um. Brasília trata logo de desfazer essa sensação de abandono justamente porque, à primeira vista, ela aprofunda essa solidão. Ou você se abre ao outro, ou fica isolado em seu apartamento da superquadra. É um ser ou não ser que impele você ao contato social porque a cidade funciona em grupos, talvez pela ausência humana debaixo do seu bloco ou na saída no trabalho.
Quando você segue o chamado, vai rindo e chorando com esses amigos adquiridos na vida, repartindo os sonhos e as frustrações tão típicas do trato humano. Ao perceber essa maturidade, parece que Brasília te conduz para a sua selva, como uma mãe felina que empurra o filhote para longe de suas tetas. Sabe que você está encaminhado e não precisa mais do colo. Parece dizer: “Agora, você é um cidadão. Se vira.”
A gente se torna cidadão brasiliense quando frequenta blocos e superquadras, defende-a dos clichês nefastos, acolhe alguém que chega sem referências, gosta dela pelo que propõe e pode oferecer. Sente a cidade quando se caminha por ela com a convicção da força do tempo presente. Absorve as festas e os ritos fúnebres. Vai ao enterro do amigo adquirido que se encantou na hora inesperada.
A maturidade vem quando a gente se sente simultaneamente daqui e dos lugares de origem. A paisagem de agora se soma à anterior, como se fossem camadas de cebola. O baiano/o carioca/o gaúcho/o pernambucano/o mineiro-brasiliense passa a ver a cidade sob a ótica dessas misturas de histórias pessoais que se amalgamam em uma só.
Acho que tudo isso é pra dizer: Feliz aniversário, Teca!

4 comentários:

Renata Caldas disse...

Um texto maravilhoso, que dá um abraço na cidade e na nossa amiga tão querida. Maggio, parabéns pra vc tb! :)bj, Renata

monica montenegro disse...

resumiu o que sempre digo sobre brasília: é necessário abrir o coração para a cidade. parabéns pelo belo texto!

Lula disse...

Gente, de quem é esse blog?
Adorei esse texto, assim como confirmo tudo o que foi dito. Assim, também como admiro e quero, e admiro a Teca....
Fica assim: Eu estou desse jeito pra cidade. Desse jeito pra Teca, desse jeito pra quem consegue entender o ponto de vista dito - atualizado.

Brasília nossa mátria!!

Lula Lopes

Viviane Marques disse...

Maravilha ler e me identificar tanto com este texto, migrante que também sou, de peito e coração aberto a todas as experiências gostosas que Brasília vem me proporcionando. Linda e merecida homenagem à Teca. Beijo, querido!