Languages

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Eta, Brasília porreta!


Sérgio Maggio
De tanto dormir e acordar em Brasília, às vezes, eu me esqueço que a cidade é a capital do país. Vivo um movimento oposto de boa parte dos brasileiros, que só se lembra daqui quando a notícia, nem sempre positiva, brota da sede dos três poderes. Para quem vive à margem do serviço público então, o esquecimento é cotidiano. Às vezes, só me recordo dessa dupla missão de Brasília pelo ofício diário de jornalista. Em dias de folga, sou acometido por uma espécie de apagão. Sofro de amnésia e vejo a Esplanada dos Ministérios mais como uma colossal paisagem do que um local de ambições políticas.
Mais do que brasileiro, a cidade me acolhe como cidadão. A cada dia que saio para comprar pão, descubro trunfos e mazelas. A maioria escondidos nas entrequadras. A cidade surpreende quem desvia o olhar da grandiosidade dos monumentos para os vãos vazios. Outro dia, passou por mim, um ciclista em velocidade. Seria só uma bicicleta se não fosse um detalhe. Havia três cães na carona do rapaz, um deles, com certeza, um poodle. Ali, aconchegados entre o colo do homem e o guidom da máquina. O motorista atravessou-me como um relâmpago. Parecia uma miragem, uma poesia urbana. Mas estava lá, com seus três escudeiros, rasgando com duas rodas a região da fonte luminosa da Torre de TV, e deixando frases de admiração no ar.
— Gente, vocês viram o ciclista com três cachorros?, admirava uma mulher.
— Meu Deus, que incrível, emendava outra senhora.
É tão inacreditável quanto comer um acarajé de soja com vatapá de abóbora. Sim, a adaptação quase light (pois continuava frita no dendê) foi degustada aqui, numa comercial da Asa Norte, numa época em que a baiana Deise Pedreira mantinha um badalado restaurante natural. Quando eu contava essa façanha em Salvador, a plateia reagia entre o espanto e a gargalhada
.
— Sacrilégio, insinuava um amigo, que saia em defesa do bolinho sagrado dos orixás.
— Antropofagia, defendia eu.
Quer algo mais antropofágico do que misturar arte circense, biodança, exercícios físicos, meditação e engenharia num sistema chamado integral bambu? Eu experimentei a criação brasiliense de Marcelo Rio Branco e era fantástico subir e descer os bambus como se fosse um animal. Além de fazer bem ao corpo e à mente, a proposta revolucionária dava um marketing pessoal incrível. Todo mundo queria saber detalhes dessa insólita atividade física. Só não continuei porque a noite em Brasília é uma disciplina que ainda não terminei de cursar.
Aliás, na noite, Brasília se revela dona de territórios únicos. Me conte sobre um lugar onde você é capaz de se sentar, num bar, e ser abordado, numa mesma noite, por uma mulher vestida de onça a vender pirulitos insossos, cruzar com um homem branco vestido de índio e ainda se deliciar com trufas feitas por uma drag queen de nome Alice, que ainda é atriz e radialista?
O Beirute é espelho da tolerância de uma cidade/capital, mãe de um país diverso que acolhe, apesar do perfil elitista do Plano Piloto, quem deseja ocupar o seu chão. Basta ir à noite no Museu Nacional Honestino Guimarães e ver uma moçada bonita vinda da Rodoviária com seus skates em punho. Ali, eles riscam um espaço vazio com a vitalidade da juventude, sob as curvas de concreto e o céu que a gente quase pega com os dedos.
Nessa hora, com minha contribuição baiana, penso: “Eta, Brasília porreta”

4 comentários:

Anônimo disse...

Sou Brasiliense e sempre comento com amigos que não são daqui que Brasília é muito mais do que a capital do país. É uma cidade mágica que oferece coisas que talvez poucas oferecem. Seu texto mostra muito bem isso. Parabéns!

Flávia Portela disse...

orque a noite em Brasília é uma disciplina que ainda não terminei de cursar'.Ótimo texto Maggio. Como sempre a sua sensibilidade percebe coisas e fazeres que me agradam muito. Essa Brasília me espanta ainda hoje, depois de 40 anos quase ininterruptos.A noite, então, vale um mestrado, um doutorado. O Beirute é um capitulo à parte. Como também essa gente que forma o nosso mosaico. E essa questão da cidade capital. Enfim, eu adoro essa cidade e fico feliz que tenhamos pessoas para capturar tudo isso em palavras. um grande beijo e um 2011 arretado.

Tino Freitas disse...

Querido Sergio, parabéns pela crônica de hoje. Supimpa!!!

SIGRID SPOLZINO disse...

Definição, aliás "porreta" que pode perfeitamente ser delegada ao amigo jornalista Sérgio Maggio. Procurando vc acha um Brasil pelas entrequadras da capital. Você sairia daqui, meu amigo? Eu, não... Baci per te