Languages

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Besteirol, a glória de um momento

Sérgio Maggio

No livro Isso é besteirol, o gaúcho Luis Francisco Wasilewski acaba por extrapolar a vida e a obra de Vicente Pereira para circunscrever a importância histórica do movimento da comédia besteirol. Muito mais do que formar público e renovar plateias, a cena aparece associada à teatralização do desbunde da contracultura, cerceada vorazmente pel
a censura militar. O autor chama a atenção para o travestimento de homens em cena como uma atitude política para um país de forte repressão às liberdades individuais. O escarnecer do cotidiano hipócrita surgia como uma crítica forte ao cerceamento comandado pelas instituições. Vicente Pereira e sua turma ocuparam esse vácuo entre o fim da ditadura e a redemocratização. Uma das poucas pessoas a defender essa cena de comédia, a crítica Barbara Heliodora declarou que o besteirol foi a glória de um momento. A cena de comédia provocou frisson nos teatros, revelou um legado de ouro de artistas e dramaturgos. Migrou para a tevê na comédia TV Pirata, do qual Vicente Pereira era um dos roteiristas — Os últimos 20 anos não foram apenas a história da ditadura militar, de seus arbítrios, de suas torturas. Foram marcados também pelo poder avassalador da televisão, pela sedutora decupagem das histórias em quadrinhos. Não sabíamos da guerrilha do Araguaia, mas conhecíamos o milagre econômico, os sonhos de ascensão da classe média. (...) Alienados seríamos se ficássemos restritos aos clássicos, aos grande autores, às montagens bem comportadas para ganhar o beneplácito dos senhores da cultura. Levamos a chanchada e a paródia à cena, sim. Com muito prazer. Porque estamos cada vez mais atentos à realidade em nossa volta, escreve Miguel Falabella.

Cinco perguntas// Luis Francisco Wasilewski
Você fala de suas gargalhadas de menino vendo Sereias da Zona Sul. O que essa pesquisa lhe trouxe como chave para entender aquele fascínio de garoto de 10 anos?
Foi uma chave para eu entender o meu encantamento e o fascínio que me causou. Já tinha costume de ir ao teatro, com minha mãe, assistir aos espetáculos infantis e os que visitavam Porto Alegre. Sereias deu um clique para eu adorar o
teatro, descobrir o seu fascínio, a áurea de ir ver um espetáculo, que, pra mim, é mais forte que ver um filme.
Você acredita que Solidão, a comédia e outras obras de Vicente Pereira continuam atuais ou foram datadas pelo excesso de referências de uma época?
O que Vicente retrata em Solidão, a comédia, por exemplo, só foi piorando com o tempo. Nessa peça, ele antecipa discussões que vieram com o aparecimento do metrossexual e a ditadura de ter e não ser, da internet, com a personagem que marca encontros com homens que não conhece. Mergulha no desamparo da velhice. Assisti à peça agora (no Teatro Cândido Mendes com direção de Cláudio Tovar e interpretação de Maurício Machado) e ela continua a provocar e causar identificações.
Quando se fala em Vicente Pereira, até para amigos do teatro, há uma dificuldade de associar o nome à importância que ele teve. Você sentiu, durante a pesquisa, que a memória estava nebulosa?
A memória dele é a pior possível. Quando fiz o mestrado na USP e as pessoas perguntavam sobre o tema, o nome Vicente Pereira não era reconhecido. Houve passagens bizarras, como o caso de achar que eu estava estudando literatura portuguesa. Acredito que em Brasília está mais preservado, pois houve recentemente uma montagem de esquete de Solidão, a comédia (com interpretação de Fernando Martins), e, em 2000, O colar de diamantes.
De alguma maneira, o HIV dizimou a cena, desde os Dzi Croquettes a autores como Vicente Pereira?
Componente gay era muito forte desde os Dzis, que eram assumidamente gays e teve quatro integrantes mortos por HIV. Quando dou palestras hoje, falo para essa geração sobre o drama da Aids nos anos 1980, que interrompeu uma geração e antecipou o fim do movimento, já que muitos criadores morreram. Quando escrevi sobre essa parte, eu chorava muito. Vicente cuidou no início do Strazzer para depois descobrir ser portador. Diogo Vilela, quando abrigou Vicente em casa, conta que o viu no sofá, já debilitado pela doença, e não reconhecia ali Vicente. Aí, ele olhou, percebeu a dificuldade do amigo e soltou um rarará, para mostrar que ele estava ali. Miguel Falabella conta que, quando Vicente recebeu o resultado do exame de HIV, brincou: “Olha só como eu estou positiva, positiva, positiva”.
Você acha que o besteirol formou plateia?
Eu sou um exemplo. Vi com 10 anos e estou até hoje com o teatro. Na exposição que teve no Rio, Lucinha Lins chorou. Ouvi relatos de Zeca Camargo, Julia Lemmertz, Fernanda Torres sobre o impacto de Quem tem medo de Itália Fausta? Agora, todo o movimento foi massacrado pela crítica baiana, paulista e carioca. À exceção de alguns críticos, como Barbara Heliodora.




Riso nervoso

A exposição Assim era o besteirol tem curadoria de Luis Francisco Wasilewski e está em cartaz no Centro Cultural Candido Mendes (Rua Joana Angélica, 63, Ipanema; 2267-7295)), onde foram encenadas peças como Bar, doce bar, Classificados desclassificados, Pedra, a tragédia e Quem tem medo de Itália Fausta? Há um vasto material iconográfico, que reúne fotos de encenações emblemáticas, programas de algumas peças, vídeos e até uma árvore genealógica que mostra a evolução do gênero. A mostra fica aberta até 28 de fevereiro, de segunda a sábado, das 16h às 21h, com entrada franca.
Passaram pelo besteirol nomes como os dos dramaturgos Mauro Rasi, Vicente Pereira, Miguel Falabella, Maria Lúcia Dahl, Luiz Carlos Góes, Felipe Pinheiro e Pedro Cardoso. Os intérpretes: Duse Naccarati, Diogo Vilela, Cláudia Jimenez, Ricardo Blat, Miguel Magno, Ricardo de Almeida, Guilherme Karam, Marcus Alvisi, Thaís Portinho, Rubens Araújo, Thelma Reston, Cristina Pereira, Stella Miranda, Mário Borges, Cláudio Gaya, Bia Nunes, Betty Erthal, Chico Tenreiro, Vera Setta, Nildo Parente, Analu Prestes, Stela Freitas, Luís Salém e Aloísio de Abreu. Os diretores: Jorge Fernando, Jacqueline Laurence, Luiz Carlos Ripper, Amir Haddad, Antônio Pedro, Ary Coslov e Wolf Maya. Os músicos: Eduardo Dussek e Tim Rescala.

Nenhum comentário: