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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

BBB no meu telhado




Sérgio Maggio

Eu estou viciado no BBB. Chego em casa e corro para assistir às loucuras dos seus participantes. Antes que se faça alguma confusão, não se trata do Big Brother Brasil — aquela loucura das pessoas em se tornarem visíveis e famosas às custas de sexo via satélite e bate-bocas por conta de perucas vermelhas. Estou louco por um BBB que se instalou no meu telhado. É de lá que acompanho diariamente a rotina de uma família de gatos e seus vizinhos. A estrela maior é Nzinga, um bichana negra com porte de rainha que pariu quatro filhotes. Eu sei todo o drama de Nzinga sem precisar que ela vá ao confessionário. A felina resolveu pôr as crias no mundo em toca de quintal que habita um pitbul. Um drama digno de novela das nove, ou melhor, de minissérie. A dona da casa, uma senhora cheia de solidariedade aos animais, quando descobriu essa iminente tragédia, resolveu prender o algoz na parte de frente da casa. Mas o cão sentiu o faro das presas e aí a tensão se instalou nesta quadra pacata do Cruzeiro Velho. Nzinga passou a comer ração dos meus gatos domésticos (Zumbi, Chiquinha e Orestes) à beira da janela, que tem vista para um mar de telhas, com um coqueiro ao fundo. Quando a situação ficou periclitante, trouxe três filhotes para o telhado. Imagino que deve ter carregado cada um pelos dentes. Não sei o que aconteceu com o quarto bichano. Mas os demais apareceram à beira do prato de comida. O que torna Nzinga essa mãe espetacular. Logo nos primeiros dias de convivência, um dos bichanos, o todo pretinho, tomou paradeiro na vida. Ficaram dois, no estilo frajolinha, revelando que Nzinga dividiu o edredrom com algum gato branco. A partir daí, esses gatinhos passaram a marcar o território. Descobriram logo três tocas, cada uma melhor que a outra. Aos poucos, ficaram tão á vontade que revelaram o sexo. Um macho e uma fêmea, batizados então de Leopoldo e Apolônia, em homenagem à memória dos grandes atores brasileiros — Leopoldo Fróes e Apolônia Pinto, que o Brazil do Alzheimer esqueceu. Leopoldo é medroso que só. Ele come e corre, come e corre, faz esse vaivém o tempo inteiro com medo de alguém esticar a mão da janela e levá-lo para dentro de casa. Tem um miado de tenor que, quando chora, estica-se quase ao infinito. Apolônia puxou a mãe. É arretada e capaz de enfrentar sozinha qualquer ameaça. Dias desses, ele ficou diante de Spencer, um gato amarelo lindo e mau. Ele é 10 vezes maior que os frajolinhas e passou a assediá-los. Spencer ataca por trás, vem sorrateiro e dispara como uma jaguatirica. Descobriu as tocas dos gatinhos e passou a encurralá-los. O vilão entrou no programa justo agora que Nzinga resolveu sair por aí e deixar os filhotes mais independentes. A mãe aparece de vez em quando para saber como estão as coisas. Não quer mais a agarração de antes e, quando percebe que Leopoldo e Apolônia estão de quero-quero com os habitantes da janela, empurra-os com o focinho para longe do contato com os humanos. Nzinga sabe que a rotina de gato de rua é uma vida de cão. E aquela gente que vende a intimidade para ter cinco minutos de fama no Big Brother Brasil é capaz de tudo. Eu termino esta crônica por aqui pois preciso correr para casa. Hoje, coisas incríveis e apaixonantes prometem esquentar o BBB no meu telhado. Fui!

Em tempo: acabamos de descobrir que Nzinga traz na barriga uma nova fornada de gatinhos. Será que ela foi seduzida pelo Spencer?

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