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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Quando Brasília é Washington


Por Sérgio Maggio
Esta é a história de um baiano que chegou em Brasília há 10 anos. Veio no faro de uma boa oportunidade de emprego e aqui pisou firme. Deixou a cidade atravessá-lo como um banho de cachoeira. Cuidadosamente, dispôs-se a descobri-la e a desvendar esse “amor desvairado”, que muitos nutrem pela capital de arquitetura incompreensível à primeira vista para quem saiu de Salvador — berço do país. Com três meses de vida no Planalto Central, revelou estar habituado a não ver mais o mar. As paisagens natural e artificial de Brasília tinham apaziguados o banzo e os estranhamentos iniciais.
— A cidade não tem negros. Parece homogênea demais. Todo mundo tem carro, até estagiário.
O baiano achava esquisito não dar carona a ninguém. Também abismava-se com a quantidade de espumante consumida pelos novos amigos. Certa vez, numa saída à noite, ele conheceu um índio-estilista, já completamente tomado pela civilidade da capital. Refestelaram-se de cachorro-quente com Coca-cola e, lá pelas tantas, o amigo da noite lhe revelou:
— Brasília é Washington, meu querido!
Riram feitos meninos sem entender direito o recado enquanto Brasília se refazia mais encantada ao longo do tempo futuro. Cada vez mais brasiliense, cada dia menos baiano, o nosso amigo nem cogitava mais ser nordestino. Esqueceu a comida de dendê. Agora, só falava de risotos e pratos da alta gastronomia, aqueles caríssimos sempre com lascas de algum ingrediente chique. Termos em inglês e palavras sofisticadas tomaram conta do “oxente” e dos palavrões do passado. Ser baiano só surgia quando, ele percebia que dava algum status nas rodas sociais.
Nos papos, havia grifes de sobra, até para comprar cinzeiro e papel higiênico. Viagens triviais e cultura de consumo eram os temas que antecediam as festas e os encontros nos endereços colunáveis de Brasília. Numa dessas baladas, encontrou aquele índio-estilista. Falaram das tendências do mundo oco e riram à base de espumante rosé.
— Não te disse que Brasília era Washington, lembrou o indígena aculturado.
— Não, Brasília é Brasília, rebateu o baiano.
O tempo passou, o baiano virou brasiliense e, quando morreu, pediu para ser cremado. As cinzas foram jogadas sobre os diversos monumentos. Partiu, coitado, sem entender a frase do índio-estilista. A Brasília que ele conheceu não era a dos brasileiros que, na capital federal, acendem as suas raízes para formar a grande fogueira de povos diversos. Não compreendeu que, para ser brasiliense, não é preciso abrir mão de sua baianidade. Aliás, essa é a maior generosidade da cidade-mãe.
* Esta crônica é dedicada a Dorival Caymmi, inventor da baianidade, e a Severino Francisco, que se encantou ao ouvir a história de que, um dia, o telefone tocou na casa do maior compositor baiano e dona Stela Maris atendeu. “Ligue mais tarde, Caymmi está fazendo exercício físico. O médico mandou ele caminhar. Então, ele está dando uma voltinha na varanda da casa!”

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