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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

De vidro fechado


Por Sérgio Maggio

Eu nunca tive medo das cidades. Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, Ceilândia, Taguatinga. Onde eu ponho os pés, respeito o mistério contido nas encruzilhadas. Aprendi cedo, quando colocaram um revólver na minha cabeça de menino para arrancar um relógio vagabundo, que as ruas têm as suas leis. É preciso decifrá-las e respeitá-las. Ao contrário das normas que regem os homens, as regras da cidades são voláteis e giram na velocidade da vida. É preciso ter atenção ao movimento ao redor. Afinal, a Brasília de 2011 não é a mesma de 2001. A legislação é outra.
Não se pode circular com a mesma tranquilidade numa cidade maculada pelo crack. Essa droga surrupia mais que a moral. Ela distancia a alma do corpo. É mais que um caso de polícia. É um problema de saúde pública. A primeira lição é entender que estamos diante de doentes. Pessoas gravemente afetadas pela dependência. Capazes de agredir ou de ficar estáticas diante de você. É preciso estar atento a essa mudança para entender as cenas tristes que se sucedem no centro da cidade.

Semana passada, um catador de latinhas, visivelmente drogado, arremessava o objeto, que supostamente seria o seu ganha-pão, em carros que passavam às margens do Setor de Diversões Sul (Conic). Fiquei na mira dele, sem mobilidade alguma pois o sinal estava fechado. Com uma mistura de aflição e racionalidade, avancei sobre o carro da frente. A colisão leve e sem reparos não fez o homem parar de lançar as latas.
Percebi então que o alvo não era eu. Era algo que estava a atormentar a cabeça dele.
Errei porque já tinha percebido que não se pode passar por ali como quem entra no Eixo Monumental, de janelas abertas com o rosto ao vento. A cidade já tinha me sussurrado ao pé de ouvido esse aviso. Dias antes, vi um monte de usuários bebendo água numa poça d´água como se fosse um rebanho. Observei também estudantes fardados misturados em pequenos grupos de consumidores. As imagens duras foram um recado cruel e decisivo. Aquela paisagem de Brasília está em desassossego. No entanto, continuei surdo, alheio. Passei outras inúmeras vezes por ali a encarar aquelas mãos estendidas, querendo qualquer moeda de centavos, até ouvir de um colega de trabalho que um dos usuários arranhou, com um anel, parte da lataria do carro dele.

Diante dos inúmeros recados, resolvi então cerrar os vidros do carro quando me aproximo dessa região. Confesso que sempre tive problema com essa atitude principalmente quando quem frequentava os sinais de trânsito eram famintos moradores de rua. Mas a cidade me convenceu que a situação é outra. Então, fico trancado no carro enquanto o usuário de crack passa diante de mim. Na madrugada chuvosa do Natal, acreditem, eles estavam lá. E alguns motoristas tinham medo de parar próximo à faixa de pedestre. Teve um que chegou a engatar a marcha ré, mas desistiu diante do fluxo de carro que vinha atrás.

Anteontem, eu parei de vidro fechado naquele sinal, retorno da Eixo Monumental para a Rodoviária. Era fim de tarde. Vi um menino negro em frangalhos. Mas vi também quatro jovens lindos e vibrantes brincando com malabares, próximos a faixa de pedestre. Tive vontade de abrir a janela, mas me contive. A cidade parecia sussurrar: “Calma, ainda cabe poesia em mim.”

2 comentários:

Paulo Sales disse...

É a falência moral do nosso país, Serginho. Um país que vai se desintegrando à nossa frente, enchendo a gente de pasmo e assombro.

Helinho Franco disse...

Salve, Maggio, tudo em paz contigo?

Velhinho, acabei de ler sua crônica e não resisti à vontade de comentá-la. Perfeita a sua visão do que se tornou uma verdadeira cracolândia do Plano Piloto.
Aquela região do Setor Comercial, Hotel Nacional e Conic, que eu sempre considerei a mais urbana de Brasília, está tristemente "urbanizada" por essa epidemia do crack, e tem acontecido coisas inimagináveis por ali, como algumas das cenas que você descreveu.
Se a cocaína é o diabo moído, o crack distancia a alma do corpo, como você bem observou, e exila o espírito das pessoas em um limbo indescritível, onde parece que elas vagarão pelo resto dos tempos. São doentes do corpo, da mente, da alma e do espírito. Diria até que é mais do que um caso de polícia e de saúde pública - é um caso espiritual.
Felizes os brasileiros de antigamente, que só tinham que se preocupar com as saúvas. Hoje, ou o Brasil acaba com o crack ou o crack acaba com o Brasil.
Abração, meu irmão! Tudo de bom em 2011