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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

A ceia de duas cidadãs


Por Sérgio Maggio

O que se faz quando se enfrenta uma fila de uma hora de supermercado? Para mim, não restou muita coisa a não ser observar a vida alheia. E olha só o que eu vi. No caixa, retardando completamente o fluxo de gente ansiosa para ensacar as compras e desaparecer na noite brasiliense, estavam duas senhoras de roupa simples e pele bem brasileira. Eram da cor da mistura da mistura — branco + índio + negro + mulato + mameluco. Tinham em mãos um mundo de alimentos, iguarias e utensílios diversos. Ao lado, consultavam atentamente folhetos de propaganda da concorrência. Apontavam a oferta mais barata e obrigavam a moça da registradora a ter que chamar o supervisor e acatar o valor mais em conta.


Elas, aliás, enlouqueceram esse cidadão de patins, que toda hora tinha que passar espécie de cartão master e digitar o preço do concorrente. As duas pareciam vibrar a cada conquista. Estavam visivelmente excitadas, enquanto a fila só crescia e avançava como uma cobra preguiçosa pelo interior do recinto. O interessante, no entanto, estava por vir. As senhoras pagavam a conta em pedaços. Nunca tinha visto nada parecido. Usaram um tantinho de dinheiro para cobrir o primeiro quinto de mercadorias, os outros foram acertados em quatro diferentes cartões de crédito. Deduzo que cada um tinha um limite bem apertadinho. Mas elas conseguiram passar quase tudo. Até cerejas importadas que estavam naquela promoção imperdível de R$ 0,98 os 100 gramas.

— Isso é cidadania, disse uma moça que observou tudo mais discretamente do que eu, de canto de olho, enquanto folheava uma revista.

Eu confesso que achei lindo tudo aquilo. Até o cansaço de estar numa fila na virada da madrugada, foi se dispersando ao olhar aquelas duas mulheres brasileiras garantindo a ceia natalina. Claro que, acreditando piamente na dignidade de ambas, penso que o Natal dessa família será extremamente feliz. Sim, porque eu não vou esquecer a cara de felicidade delas a cada produto comprado. Era como se fosse um gol marcado.

Deve ser um Natal totalmente diferente da mesa farta dos corruptos. Imagine como deve ser indigesto comer um pedaço do panetone daquele povo da Caixa de Pandora? Ou ainda morder a coxa do chester desta gente que embolsa dinheiro público? Como deve ser deprimente sentar-se à mesa e cear alimentos que foram arrancados da população. Mastigar o pão indecente de quem faz farra com emendas parlamentares e verbas de gabinete, erguendo casas de milhões de reais em condomínios de luxo nos muitos setores de mansões do DF. Há bolor em toda mesa farta de origem duvidosa de quem embolsou propina, de quem usou o poder público para dar aumento a si mesmo.

Mesmo sem conhecer os nomes, as trajetórias e as posturas daquelas duas mulheres, o Natal delas deve ter sido tão glorioso que torço para que os deuses permitam que elas consigam pagar, com folga, as faturas dos quatro cartões de crédito usados na compra. Aos senhores e às senhoras corruptos deste Brasil que almeja ser a quinta potência do mundo, que a consciência de cada um se inquiete como uma eterna tormenta—daquela capaz de não deixar pedra sobre pedra. Quem sabe um dia poderão sentar-se à mesa e compreender a missão de ser um homem público.

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