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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Brasília, diva de cinema

Gato branco, de Escher

Sérgio Maggio

Brasília é uma cidade cinematográfica. Como ela gosta de se exibir para câmera de cinema. Fica bem em qualquer ângulo. Dos mais clichês e monumentais aos inusitados que saem das cabeças inquietas dos diretores de fotografia e dos cineastas, a cidade arranca suspiros na tela. Eu desconfio que ela faz isso para se vingar dos cinegrafistas de televisão, aqueles que botam um repórter sempre plantado em frente aos palácios e reforçam a imagem de capital federal, sede absoluta do poder. Ou ainda aos equipamentos minúsculos colocados secretamente em paletós para revelar a sangria de dinheiro público em gabinetes de governador e de distritais corruptos.

Nessas horas, Brasília fica sisuda. Não que não queira que a podridão venha à tona. Ao contrário. Mas porque ela está cansada de ser associada unicamente a essa lama, a esse constrangimento nacional. Então, quando aparece um artista querendo mostrar ao mundo as mil Brasílias, a musa se desvela, com charme, de uma coelhinha da Playboy. Para os cineastas, a cidade não esconde nada. Nem as vergonhas nem as intimidades. Abre as suas veias. Mostra os meninos se destruindo no crack em subsolos soturnos, as meninas trocando o corpo por dinheiro em galerias grafitadas e pistoleiros apagando a vida dos desafetos sem piedade nas quebradas esquecidas pelo poder público das cidades-satélites.

Brasília tem consciência da luta de seus cineastas, atores e técnicos para embarcarem na loucura de fazer um filme. É generosa porque sabe da carência dos recursos públicos para a cultura do DF. Ela assiste perplexa à luta cruel do Cine Brasília contra o tempo implacável, que arrebenta o concreto e os sonhos com a mesma facilidade. E testemunha o descaso público com o Polo de Cinema, que deveria abrigar gratuitamente as produções, mas acolhe o mato e uma parte de um milhão de moscas que infestam a cidade suja e entregue ao desgoverno.

Patrimônio do país, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro promove dias de diva a Brasília. O tratamento de primeira vem dos seus cineastas que enchem as telas do Cine Brasília e da Sala Martins Pena com poses da musa. Como é gostoso, mesmo num filme mais ou menos, ver Brasília descampada nas telas, sem aquele cerimonial de capital federal.

No campo da arte, não há moral nem regras. Aí, Brasília se esbalda. Vira terra de todas as religiões e sexualidades, todos os seres baixam aqui, até de outras galáxias. As classes sociais se diluem. O Plano Piloto perde a soberba e as cidades-satélites ganham poesia. Os negros viram protagonistas e os loucos, as prostitutas, os bêbedos e as travestis têm as histórias postas à mesa.

Brasília, musa de cinema, é infinitamente sedutora, insaciável, justa e adora ser devorada por olhos famintos, que fazem desse festival uma festa com cheiro de carnaval de rua, no qual sagrado e profano se misturam no mesmo corpo suado.

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