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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Alma de menina


Foto//AgNews// Chico Anysio e Lupe: inseparáveis

Por Sérgio Maggio

Toda vez que Chico Anysio conta a história do começo de carreira, na Rádio Guanabara, ele para, respira e reverencia a irmã Lupe Gigliotti. Foi graças a ela, e a um tênis, que o menino cearense de Maranguape iniciou a carreira vitoriosa que levaria a se tornar um gênio do humor brasileiro. “Eu tinha ido jogar bola num gramado e, chegando lá, mudaram a pelada para um campo de chão batido. Voltei para casa para buscar um tênis e, quando cheguei, Lupe e um amigo estavam saindo para fazer um teste de rádio-ator. Na hora, decidi ir junto”, conta o artista. Os dois passaram no teste e selaram uma parceria sem fronteiras de linguagens.
No domingo, a atriz e diretora Lupe Gigliotti, 84 anos, morreu em casa, no bairro de Copacabana, sem se despedir do irmão, que se recupera de intervenção cardíaca numa UTI hospitalar. “Impossível reproduzir palavras do Chico nesta hora de dor, mas certamente seriam as palavras mais lindas do mundo. Como ele não está podendo falar, quero apenas dizer algo em seu nome: ‘Lupe querida, eu eternamente te amarei’”, postou Malga Di Paula, mulher de Chico, no Twitter oficial do humorista. Fazia dois anos que ela enfrentava um câncer no pulmão.
Mãe da diretora Cininha de Paula e avó da atriz Maria Maya, Lupe Gigliotti construiu uma carreira autônoma, com importante passagem e formação pelo Tablado, de Maria Clara Machado. Lá, consolidou o fascínio pelo teatro, que nasceu com as brincadeiras de menina em Fortaleza. “Até então, eu não tinha assistido a nenhuma peça de teatro. Resolvi fazer uma na garagem da minha casa. Escrevi a peça, a música e arrumei o cenário, esticando lençóis. Não satisfeita, resolvi vender ingressos pelo bairro. Vendi para o homem da padaria, da farmácia, vizinhos”, disse em entrevista.
Formou-se em direito e, como costumava dizer, atuou em muitos desquites. Mas foi o talento precoce da filha Cininha que a aproximou do teatro profissional. Levou a menina para estudar no Tablado e, ao conhecer Maria Clara Machado, ouviu uma instigante provocação: “E você?” “Eu falei que era advogada e tinha vindo por causa da minha filha, mas ela insistiu e me convidou para fazer uma aula como ouvinte. Subi no palco e, naquele momento, minha vida mudou.”
O germe do teatro disseminou-se em Lupe. Estreou a primeira peça em 1966, Interferências, contracenando com Cininha de Paula, e ganhou prêmio de atriz revelação. A dedicação pelo teatro a fez emendar espetáculos numa mesma temporada. Chegou a fazer simultaneamente Tablado para crianças e espetáculo adulto com texto de Max Nunes. Produziu, dirigiu e atuou nos principais textos de Maria Clara Machado, a maior referência do teatro infantil brasileiro. A montagem A bruxinha que era boa (1978) foi um dos maiores sucessos da temporada carioca daquele ano.
O gosto pelo teatro infantil a fez também enveredar pela dramaturgia. Ao todo, escreveu 12 textos, alguns premiados, como A volta de Chico Mau. Montou também, inicialmente ao lado de Cininha e de Vera Jopert, o grupo CiVeLu (1980-1993), conhecido por “Teatro da Lupe”, que levava peças infantis para festas de aniversários de classe média alta. Passaram pela companhia futuros talentos como Maurício Mattar, Nizo Neto, Carla Daniel, Danielle Winits, Claudia Rodrigues e Eduardo Martini.
“Durante 20 anos sem interrupção, mesmo com inúmeras dificuldades, cumprimos nossa proposta de trabalho levando o teatro à casa das pessoas, mostrando nossa visão das tradicionais histórias infantis e, às vezes, enveredando até pelo absurdo, o que não deixa de ter um caráter educativo, afinal, a arte é algo sem fronteiras. Mostrávamos nossos espetáculos em salas, playgrounds, colégios, hotéis, clubes, tentando sempre fazê-lo com dignidade e respeito, que as crianças merecem.”
A televisão a popularizou. Ao contrário do que se pensa, estreou no veículo não pelas mãos de Chico Anysio, mas de Maria Clara Machado, em 1971, com a novela A patota, no papel dramático de Dona Bernardina. Mas se descobriu comediante nas parcerias com o irmão no Chico Anysio show. Um dos personagens de maior sucesso foi o de Dona Escolástica, na gloriosa volta de A escolinha do Professor Raimundo. A última aparição em novelas foi neste ano, em Cama de gato.
“Para mim, a criança representa o amor, a beleza da vida, a possibilidade de um futuro melhor. Eu tenho esperança de que, com essa geração, que é tão bem informada e lúcida, a vida melhore, porque atualmente vivemos num mundo cão, muito violento”,

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