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terça-feira, 12 de outubro de 2010

Estilhaços sensoriais inquietam espectador

Sérgio Maggio

As cadeiras dispostas em direções diferentes na plateia de Cartas de amor formam um signo potente e ainda incompreendido por quem chega ao Teatro 2 do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Há os que acham esquisito sentar olhando para as paredes e acertam a poltrona para ter uma visão frontal do centro. Pode ser até que algumas dessas pessoas queiram ouvir “eu te amo” em melodias melosas. No entanto, o que está por vir é uma fragmentação sensorial da frase mais banal do planeta. Instaura-se um estado de percepção sobre o tema proposto ao redor de um espectador, que é movido a girar o pescoço para muitas direções e abandonar a cômoda condição de observador.

Na montagem Cartas de amor, público é imerso em  estado de percepção: hoje e amanhã tem sessões extras - ()

Desde o primeiro instante de Cartas de amor, os intérpretes assumem a condição de performers. E convidam o espectador a embarcar nas questões que afetam o espetáculo. A algumas pessoas, são ditas frases ao pé de ouvido que ninguém mais saberá. E a narrativa se estabelece circular aos sentidos, pela conjunção de vídeos, canções e ações, cenário, luz e figurino estabelecendo a discussão sobre solidão, (des)encontro, dependência afetiva. Cartas de amor é, sobretudo, ode aos estilhaços do antes, durante e depois de ser e estar apaixonado.

Flávio Graff, mentor do espetáculo (roteiro, letras, direção, interpretação), propõe o hibridismo de muitas linguagens para convidar o espectador a mergulhar nesse caldeirão de sensações, no qual cada um pode catar o lhe for conveniente. O vídeo com a dança de Márcia Rubim é um dos cacos mais preciosos. Há, no entanto, uma perda de ritmo quando os intérpretes Dedina Bernardelli, Fernando Alves Pinto e Flávio Graff assumem cena naturalista em torno de cartões-postais. Talvez, pelo conteúdo corriqueiro das mensagens lidas. Talvez, por todos estarem imersos demais numa profunda condição sensorial. A sequência, que culmina com a degustação coletiva de cuscuz marroquino, recupera-se espontaneamente, quando o público, já tão esquecido de sua condição de espectador, levanta-se vai até a mesa central e devolve a cumbuca vazia.

CARTAS DE AMOR

Teatro 2 do Centro Cultural Banco do Brasil (SCES, Tc. 2, Cj. 22; 3310-7087) Até 23. De quinta a sábado, às 21h; e domingo, às 19h. Sessões especiais hoje e amanhã, às 21h; ingressos:R$ 15 e R$ 7,50 (meia também para correntistas do Banco do Brasil). Não recomendado para menores de 14 anos.

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