Languages

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Entrevista revista VIP

Sobre cafetinas

sexta-feira, 22 de outubro de 2010 - por Rodolfo Viana
[FOTO] Sérgio Maggio

Sérgio na Ladeira da Montanha, em meio aos "bregas" | Foto de Claudia Ferrari

Quando foi lançado, em fevereiro de 2009, Conversas de Cafetinas(Arquipélago Editorial, 160 páginas) me passou despercebido. Eu não era repórter de cultura e acompanhava a literatura como um mero leitor, escolhendo um título aqui e outro acolá. Aí veio o Jabuti 2010 que, além de premiar os melhores títulos lançados no ano anterior, serve de guia para muitos leitores — confesso que faço parte deste grupo. Foi então que tropecei em Conversas de Cafetinas, de Sérgio Maggio, finalista do Jabuti na categoria reportagem.

Sérgio, hoje subeditor de cultura do Correio Braziliense, começou em 1997 a desnudar a realidade das cafetinas de Salvador. Cafetinas, não: “donas de casa”, como preferem ser chamadas. “Visitei mais de 30 prostíbulos, fiquei diante de 17 cafetinas, e oito delas decidiram contar as suas histórias”, comenta o jornalista, que dedicou um ano ao trabalho. Durante esse período, zanzou pelas ladeiras de Salvador à procura não de prostitutas, mas sim daquelas que estavam no comando do comércio do prazer.

O resultado é um livro primoroso, recheado de boas histórias. Desde cafetinas consideradas “mãezonas” até a mulher que nunca foi prostituta, mas que comanda um “brega” (gíria para prostíbulo). Desiludidas com o amor, violentadas na infância ou mesmo felizes no matrimônio, as cafetinas retratadas por Sérgio remetem às ficções de Jorge Amado — se ficções fossem. São perfis curtos, que misturam o prazer do sexo à dor da vida dessas mulheres brutas.

Por que escolheu as cafetinas de Salvador como tema?
Primeiro porque estava ali, vivendo e morando em Salvador. Segundo porque eu cresci afetado pela literatura de Jorge Amado, que é repleta de cafetinas e casas de bordéis. A ideia inicial era ver como estavam essas casas no fim do século 20. A figura da cafetina se situava neste período entre o romantismo dos livros de Jorge Amado e a crueza das páginas policiais, nas quais elas apareciam serviciando menores. Um dos meus objetivos era encontrar a mulher de carne e osso, humanizada.

Muitas delas não se definem como cafetinas, mas sim “donas de casa” e outros termos. Para você, que frequentou os bregas durante a concepção do livro, o que é uma cafetina?
As mulheres que entrevistei rejeitavam, em sua maioria, essa denominação porque atrelavam isso às profissionais que escravizavam menores, sobretudo. Então cafetina era uma associação ao noticiário policial. Eles se consideravam donas de casa, porque mantinham o funcionamento da casa sem problemas com a polícia, sobretudo. Evitavam trabalhar com menores, mulheres viciadas e barraqueiras. Porque isso chamava a atenção das autoridades para as casas, chamadas de tolerância. O cerco com a prostituição de menores, sobretudo, aumentou no fim do século 20. E ter presença de menores implicava não só na prisão, mas no fim do negócio. Pra mim, eu não faço a distinção. Cafetina é a mulher que comanda e lucra com o negócio.

Você cita que “a prostituição tem múltiplos caminhos de chegada”. Quais os mais comuns?
Sem dúvida, a desestrutura familiar. Muitas meninas fugiam de casa porque eram abusadas por parentes, inclusive pai e irmãos. A violência em casa, o alcoolismo e as drogas no lar. Mas há muitos motivos. Inclusive o livre desejo de se prostituir e ter a atividade como profissão.

Há bastante referências à liberação sexual feminina como motivo para a pouca frequência nos bregas. Frequentar prostíbulos está em desuso?
Sim, sobretudo nas grandes capitais. No interior, nem tanto. As doenças sexualmente transmissíveis, o risco de se expor e a liberação da mulher são alguns dos fatores para a decadência dessas casas. A prostituição se modernizou com a tecnologia. A vantagem das casas sempre foram a segurança da prostituta e a não necessidade de se expor na rua. Só que as tecnologias fizeram uma revolução nesse sentido. Com um celular, um site e um local seguro, a mulher faz o programa sem precisar se dividir os lucros

Houve cafetina ou prostituta que tentou te seduzir de alguma forma?
Sim.

Como foi?
Isso sempre acontecia no início da abordagem sobretudo. Mas depois, esclarecido os objetivos, tudo ficava numa boa. Rolava muita cerveja, cigarro, tiragosto, algumas danças e uma possibilidade de diálogo de igual para igual. Não caí em tentação.

Um comentário:

Leandro Wirz disse...

Pôxa, eu ia comprar a revista só para ler a entrevista e não por conta do ranking das 100 mulheres mais sexy...rsrsrsrs
Parabéns, caro!