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domingo, 5 de setembro de 2010

Tudo é rock’n’roll


Antônio Cunha/Esp. CB/D.A Press


Sérgio Maggio
José Carlos Vieira

Mário Bortolotto avisa. “Sou melhor escrevendo do que falando”. Mas a gente foi ao encontro do dramaturgo paranaense, radicado em São Paulo, para conversar sobre gostos, trajetórias e incidentes urbanos. Aproveitamos a passagem dele por Brasília com a temporada de Êxtase, que lotou o Teatro 2 do Centro Cultural Banco do Brasil, em temporada até 19 de agosto. No espetáculo, o homem de muitas facetas assume uma: a de ator em personagem fanático por Elvis Presley. Um dos pontos altos da montagem é quando Bortolotto “rebola” como o Rei do Rock. È bom vê-lo cheio de vida no palco. Recentemente, o Brasil se assustou com os tiros que o dramaturgo levou durante uma tentativa de assalto no Espaço dos Parlapatões, em São Paulo, sua cidade-musa. “Fui vítima da Lei do Silêncio”, enfatiza Bortolotto, que curiosamente tem um blog chamado “atire no dramaturgo”.

Você passou a temporada de Êxtase em Brasília. Como dialogou com a urbanidade da capital?
Conheço pouco Brasília. Tenho saído no máximo até o Beirute (109 Sul). Não sou turístico. O elenco até gosta de ir lá ver os pontos turísticos, mas sou avesso. Uma única vez que eu fui para Franca, num festival de dramaturgia em Paris, não vi nada que o povo vê. Torre Eiffel, nem passei por perto. Fui na Shakespeare Company, que Gertrude Stein e Hemingway frequentavam, e em pubs de blues e jazz, que vendiam quadrinhos.

Incomoda estar numa cidade que é sede do poder?
Sou avesso a política. Pra mim, passa despercebido. Nem sei quem são os candidatos a presidente; Lula é candidato? (risos) Sou avesso, passo batido, não ligo a mínima.

Em Êxtase, você volta a ser só ator. Como foi a temporada?
Fui convidado para o espetáculo para ser só ator. Gosto quando isso acontece porque não preciso cuidar de tudo. Não tenho que dirigir o meu texto. Quando eu me identifico com o projeto, eu aceito. No caso do Mike Leigh (o autor de Êxtase), aceitei porque achei que poderia me divertir. Se não tivesse essa intuição, não teria aceitado. Gosto de fazer Mike Leigh, além do que o elenco de Êxtase é muito bacana.

O seu personagem em Êxtase tem um momento divertido imitando Elvis. Ele é uma referência?
Elvis é uma referência desde sempre. Minha mãe gostava muito de Elvis. Lembro de vê-la chorando ao assistir ao filme Bridge over troubled water. Um dos primeiros disco que eu comprei foi de Elvis. Se bobear, foi o compacto Blue suede shoes. Ele morreu em 1977 quando eu estava o descobrindo melhor.

E aquela coreografia do Elvis na peça? Você ensaiou ou veio da sua memória afetiva?
Inventei na hora. Fui puxando do meu imaginário, da pélvis, dele fazer kung fu, era faixa preta. Fiz uma brincadeira. Tudo referência. O diretor nem precisou me conduzir.

É difícil definir você. Autor, diretor, ator, roqueiro, fã de cultura pop. É fácil conviver com tantos Bortolottos?
Só faço o que gosto, independentemente de qual departamento. Nunca aceitei fazer nada que não gosto. Não há brigas.

Como nasce a sua escrita?
Geralmente, quando eu escrevo é porque aquele texto está na minha cabeça faz um tempo. Fico maturando, demoro muito para sentar e escrever. Quando vou ao computador, está meio pronto. Às vezes, o cara fala que eu fiz uma peça numa noite. Mas estou pensando nela há mais de um ano. O texto vem pronto. Faz tempo que não escrevo. O último foi no ano passado, Música pra ninar dinossauros. Estou escrevendo agora dois.

Você sempre prefere dirigir o seu próprio texto?
Prefiro dirigir o que escrevo. Não fico satisfeito quando entrego a outro. Sempre tenho problemas.Agora, depois que eu dirijo, acho que fica bacana sacar uma visão de outro cara. A primeira, eu gosto que seja a minha.

O Bortolotto-dramaturgo defende o texto do Bortolotto-diretor?
Sim, defende o texto do dramaturgo. Sempre defende. Eu, como diretor e ator, sempre defendo o texto. Foi assim com o Mike Leigh. Gosto de ser o mais fiel possível. Acho legal servir ao trabalho de outra pessoa. Sou um ator disciplinado. Se eu aceito o trabalho, vou fazer direito. O que o diretor quiser. Não tenho por que estar brigando com ele. Mas não consigo ouvir histórias de todo mundo. Se o diretor vem e diz. “Mário, quero que você mude amanhã. Não gostei que você fez hoje. Quero uma intenção diferente”. Mudo amanhã mesmo. Mas se vem alguém da plateia, eu não quero saber. Não tenho interesse nenhum de saber a opinião de todo mundo.

Você ainda tem paciência para ver teatro que não dialoga com seu trabalho?
Cada vez mais vou assistir ao que dialoga comigo. Não tenho mais paciência em ver tudo. Antes, era meio rato. Hoje, é só o que interessa. Qual é o discurso do diretor? Qual é a sua proposta? É a minha praia ou não. Às vezes, o espetáculo é bom pra caralho, mas não te agrada. Pega o Zé Celso (do Teatro Oficina). É um puta diretor, mas não tenho interesse nenhum no trabalho dele. Não dialoga comigo. Então, não vou perder três ou quatro horas da minha vida para vê-lo. Não é a minha praia.

Incomoda quando classificam suas peças de nova dramaturgia?
Eu não sou novo. Tenho mais de 50 textos escritos, quando comecei tinha pouco dramaturgo surgindo. Tínhamos saído da crise da ditadura e os temas pareciam esgotados. Apareceram os autores de besteirol e aí é que eu apareço. Já escrevia em Londrina, quando eu me mudei para São Paulo em 1996. Cheguei com uma carga de 30 textos. Fiz uma mostra em 2002 com 26 peças e a muita gente ficou chocada. Pra mim, é natural. Não me sinto um dramaturgo revolucionário. Só quero contar boas histórias.

Lá em Londrina você já fazia teatro de grupo, que agora virou uma forma vigente de se fazer teatro…
Esse negócio de teatro de grupo tem uma conveniência em São Paulo com a Lei de Fomento. Não sei se as pessoas querem trabalhar juntas ou se formam grupos porque essa é forma de fazer. Em Londrina, era natural trabalhar em grupo. Só tinha teatro amador. Cemitério dos Automóveis, Proteu, Delta. Paulo de Moraes (hoje diretor do Armazém) saiu do Delta e fundou a companhia Bombom Pra Que Se Pirulito Tem Pauzinho Pra Se Chupar (risos). Ele vai ficar puto comigo, mas o nome era esse. Depois, virou Armazém. A gente era Chiclete com Banana por conta das tiras de Angeli, que nem era famoso. Aí veio a axé music e começou a bombar. Mudamos o nome para Cemitério dos Automóveis para não confundirem com a banda baiana.

Você consegue se imaginar fora de São Paulo?
Difícil. Eu me enraizei em São Paulo, gosto muito. Já pensei em ficar seis meses na Cidade do México, porque dizem que é uma São Paulo mais violenta, urbana, caótica. Isso me interessa. Trocaria então São Paulo pelo México por uns tempos. Depois, volto.

Se Charles Bukowski vivesse entre nós, ele seria reverenciado como poeta, como pensador,ou não passaria de mais um alcoólatra politicamente incorreto?
Pra mim, ele será sempre um grande poeta. Achava um escritor genial, depois um grande poeta, quando descobri os poemas dele em 1984. Li numa biblioteca de Londrina e foi uma mudança radical no meu modo de escrever, que já vinha sendo inspirado pela geração beat. Eu já lia muito Henry Miller, uma puta influência. Acho ele muito sofisticado, mas a crueza de Bukowski me interessa. Ele é cru e poético ao mesmo tempo.

Você é um consumidor voraz de cultura pop. O que mais te interessa: teatro, cinema, música, quadrinhos?
É tudo misturado. Pra mim, tudo é rock’n’roll. Quando faço teatro, penso em rock ’n’ roll. Quando leio quadrinhos, é rock’n’roll.

Você segue a receita do sexo, drogas e rock’n’roll?
Sexo e rock sempre. Drogas, eu não uso. Já experimentei, mas nenhuma pegou forte. Tem gente que acha que estou mentindo ou sendo politicamente correto. Mas eu só bebo.

O teatro brasileiro não anda muito monótono?
Pois é, mas aparecem coisas boas. Tudo pode ser chato: teatro, cinema, literatura, quadrinhos. Gosto de 10%. Teatro também é 10%. Mas sempre que vejo uma boa peça, fico inquieto e sinto um tesão para escrever para teatro.

Alguma chance de ir para a tevê?
Não tenho nada contra a tevê. Eu gosto de tevê. O problema é quanto ao que estão fazendo. Acho quase impossível fazer um projeto que eu goste na tevê, porque o que manda é a facilidade do mercado. Agora, desliguei a minha tevê a cabo. Estava meio chato, pegando à toa.

Depois da violência sofrida por você, a cara do mundo ficou mais feia?
Acho que não, fiquei mais amargo. Mas, era natural. A idade traria isso, mesmo que não tivesse levado os tiros.

Foi esquisito virar celebridade por conta do acidente?
Eu levei os tiros e fiquei na UTI, sem acesso, não sabia o que estava acontecendo, que tinha uma penca de amigos lá fora preocupados comigo. Só recebia visitas dos mais próximos, minha ex-mulher, minha filha. Quando entrei no meu blog (Atire no dramaturgo) e vi a quantidade imensa de e-mails, fiquei assustado. Tinha jornalista querendo me entrevistar em primeira mão. Não queria virar espetáculo, não quero ser o furo de reportagem deste ou daquele jornal. Achei isso meio sacanagem.

São Paulo hoje lhe assusta?
Não me assusta nada. Entro nos mesmos bares. Acho que fico mais alerta, mas é natural. Fui baleado no Espaço Parlapatões por causa da Lei de Silêncio. Porra, tiveram que baixar as portas do teatro e a gente ficou dentro. Virou uma arapuca. Eu odeio essa Lei do Silêncio, ela foi a culpada desse episódio (risos).



"Fiquei mais amargo. Mas era natural. A idade traria isso, mesmo que não tivesse levado os tiros”

3 comentários:

Leandro Wirz disse...

Beleza de entrevista, meu caro Maggio!

Sérgio Maggio disse...

OI querido amigo. Abraços mil e saudades secas. A umidade está a 12%

Sérgio Maggio disse...

Mário Bortolotto fez observações pertinentes sobre a entrevista que público abaixo: Foram erros que acho importante ser observado. Alguns foram falhas minhas...
O blog de Mario é http://atirenodramaturgo.zip.net/

Eis o post dele:

E hoje também saiu uma entrevista minha no "Correio Braziliense". Concedi essa entrevista quando tava em Brasília no mês passado apresentando a peça "Êxtase".

Aqui o link para o blog do jornalista (Sérgio Maggio) que fez a entrevista. Tá lá na íntegra. Tem alguns pequenos erros, mas não é culpa do jornalista e não é nada que comprometa a entrevista. É que no meio da conversa, é natural que o entrevistador se confunda e depois transcreva errado o que a gente falou.

Por exemplo: não sou curitibano. Sou londrinense.

É França, não Franca. (acho que aí foi um erro de digitação mesmo)

O Festival de Dramaturgia não foi em Paris, mas sim em Pount-à-Mousson (três horas de Paris). Fui pra Paris por minha conta ficar rodando lá por três dias e fiquei dormindo num albergue em Cartier Latin.

Não existe nenhum filme do Elvis que se chama "Bridge over troubled Water". Essa é uma música de "Simon & Garfunkel" que o Elvis canta no filme "Elvis é Assim" e que realmente emocionava muito a minha mãe.

Elvis era faixa-preta de Karatê, não de Kung-Fu.

Outro erro de digitação : É "pagando à toa". Não é "pegando à toa".