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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A seca é uma deusa



Por Sérgio Maggio

Tive um sonho delirante. Estávamos eu e alguns amigos queridos nus e em volta de uma deusa que expelia vapores de água de cheiro. Ela tinha um pescoço que girava como uma coruja e um corpo bojudo e azulado da cor do céu da cidade. Ao seu redor, todos pareciam executar um rito sagrado. Talvez uma dança da chuva. Ainda inebriado pela esquisitice, acordo e quem eu vejo ao pé da cama: a deusa. Assustado e de coração aos saltos, dilato os olhos para me certificar do mirabola nte fenômeno místico quando constato que esse ser mágico é, na verdade, o meu umidificador.

Durmo com essa deusa na cabeceira da cama desde que a seca começou a rachar os meus lábios. Ela me alivia, mas não sacia a sede. Sedento, desperto bêbado de sono sempre no meio da madrugada e entorno, como um dromedário, meio balde de água, desmaiando, em seguida, saciado. Nunca mais tive uma noite corrida de sono desde que a baixa umidade se estabeleceu entre nós. Num desses sábados de 20%, vi tudo rodopiar por duas vezes como se estivesse acometido por uma labirintite crônica.

Ultimamente, andei tão desolado com esse clima que até pensei em decidir o meu precioso voto em favor de algum candidato que oferecesse uma “bolsa-umidade”. Investiguei com cautela, mas ninguém defende o slogan “umidade já”. No horário gratuito, não há um aspirante a distrital que alardeie “por uma seca com 45%, vote em mim” ou ainda “eu vou criar o SUC (Sistema Umidificador Central), que vai jogar n uvens de vapores sobre o DF em dias de urgência”. Sem esperança, voltei às raias da indecisão eleitoral.

Se eu fosse um menino em Brasília, teria uma pergunta a fazer a minha mãe: “Oh, mainha, durante a seca, quem sofre mais: o ser humano ou a planta?”. Hoje, não tenho dúvida. É o ser humano, limitado dentro dos seus confortos, quem padece. Basta olhar para o cerrado e observar que o enfrentamento é feito com dignidade. Há árvores, como os ipês, que dão até para sorrir diante de tão ba ixa umidade. As gargalhadas são os lindos ramalhetes de flores. Só o fogo pode acabar com esse cenário deslumbrante. E muitas vezes, nós sabemos, é o bicho homem que provoca as queimadas, com suas típicas insanidades.

Se meu corpo sofre com a seca, minha alma, no entanto, se engrandece em atravessá-la com a mesma dignidade de um ipê amarelo. Uma vez, andando pelo Setor Hoteleiro Sul, num dia de baixa umidade, fui tomado por uma sede incontrolável. Não havia uma garrafinha de água seque r à venda. Desesperado, entrei no prédio dos Correios e implorei por um copo d’água. Ao saciar a sede, compreendi que a seca nos faz lembrar o quanto somos frágeis diante da natureza. Assim, eu, nascido sob a maresia da Baía de Todos os Santos, aprendi a reverenciar a seca do DF como se fosse uma deusa.

Um comentário:

Maria do Socorro Pereira Gonçalves disse...

Sérgio, bom-dia!!!! Só agora estou tendo tempo para expressar algo a partir da leitura de sua crônica sobre a secura "deusa" de Brasília: A medida que fazia a leitura daquela criação pensei: não é possivel que este cara (cara no bom sentido) vai se expor ao ponto de narrar o seu sonho, é "louco" mesmo se assim o fizer. E aí eu quis fazer uma interpretação. Parei de pensar em faze-lo e fui lendo, curtindo e muito curiosa com o que viria a conhecer sobre vc nas próximas linhas. Quando vc diz que acorda e vê a deusa: pensei comigo: Este cara está em "pré-surto" e continuo a leitura. Quando vc revela sua "deusa" me abro em GARGALHADAS!!!!!! gargalhadas mesmo!!!! e aí a vontade de finalizar a leitura foi se apoderando dentro de mim e a cada linha me deliciava com sua paixão-criativa por escrever e falar sobre Brasília. Falei e mostrei na família o seu pensamento a sua forma de falar sobre Brasília. Parabéns por sua adaptação, reverência e forma de expressar seu pensamento e sentimento numa ação tão linda! Me sinto presenteada com tamanha sensibilidade ao caracterizar tão bem o contexto desta estação de nossa "mãe-terra-Brasília que tanto amo! (tanto amamos!). Parabéns!