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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O sorriso de Dominique


por Sérgio Maggio

Conheci Dominique* ao meio-dia de sol escaldante num bar de Brasília. Linda, ela estava maquiada e tinha acabado de vir da faculdade. Sentava numa daquelas cadeiras amarelo-girassol de boteco e irradiava luz própria. Falava fluentemente sobre a arte, a vida e a delícia de aprender. Com alguns segundos, revelava planos urgentes: fazer teatro era um deles. No intervalo das palavras, era impossível não notar. Dominique tinha um proeminente pomo de adão. Possuía também rosto anguloso, mãos longilíneas e pés enormes.

É claro que Dominique leu nos meus olhos esse estranhamento.

— Transexual, disse ela, velozmente, antes de minha mente formar qualquer conceito.

Explicou que não era um travesti porque nunca tomou hormônios para ter o corpo masculino alterado. Desde menino, sentia-se menina. Agora, lutava para fazer a cirurgia de mudança de sexo no exterior e adquirir o nome social de mulher feita.

— Quero que meu nome escolhido apareça na lista de chamada da faculdade, sonhava.

Sentada à mesa, Dominique esbanjava felicidade. Olhei para o relógio. Eram 12h30. A essa hora, a maioria das transexuais, travestis e transformistas estaria com a maquiagem borrada no travesseiro. Todos sabem que elas trabalham na noite. Uma grande parte se prostitui. Não têm fôlego para uma cerveja ao meio-dia de sol a pino.

Dominique é uma exceção à regra. E não é difícil descobrir por que escapuliu de sina imposta aos meninos que se sentem aprisionados no corpo errado. A família de Dominique mudou o destino e tirou a cria do calçadão do Setor Comercial Sul. Conseguiu suportar a decisão do garoto e o apoiou no seu árduo caminho para mudar de sexo. É claro que ninguém calcula o preço, as dores, as decepções e as esperanças experimentadas por eles. Mas essa decisão madura de enfrentar o inesperado fez de Dominique uma pessoa cheia de projetos.

Não que os travestis, transexuais e transformistas do Setor Comercial Sul não tenham planos. Mas, no momento em que um menino decide virar menina, não há mais tempo para sonhar. Sobreviver é o verbo. A opção implica romper bruscamente com todos os vínculos sociais. Família, escola, igreja. Sozinho, a rua é o abrigo. Alguns chegam à prostituição sem a menor formação psicológica para enfrentar a barra pesada do preconceito. Clientes violentos, polícia despreparada, colegas calejadas pela vida, pessoas ditas normais que viram as costas. É preciso perder a meninice, ficar feroz, quem sabe pôr até navalha na cinta-liga.

Não é brincadeira ir para o calçadão. Certa vez, acompanhando jornalisticamente uma noite de travestis e prostitutas no Setor Hoteleiro Sul, vi meninos ricos atiçarem furiosos jatos de extintor dos seus carros sobre essas pessoas como se fossem bichos. Não é fácil ser o que é, diz o poeta, e muitas Dominiques gostariam de ter tido, ao menos, uma escolha. A nossa sorri de esperança.

* O nome social de Dominique foi trocado para preservá-la

Um comentário:

Tiara disse...

Dominique é linda