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domingo, 5 de setembro de 2010

O quilombo de Zumbi e Nzinga



Sérgio Maggio

Os gatos são do mundo. Zumbi atravessou uma fresta no portão lá de casa e correu riscando o asfalto como um corisco. Fiquei que nem pai e mãe. Oco, sem um tanto de mim. Saí pela noite do Cruzeiro Velho a espiar bueiros, canteiros de plantas e telhados, numa atitude suspeita para quem não sabe a angústia de não sentir mais o corpo do bichano a se espichar sobre a minha barriga enquanto cochilo.

— Quem mandou você colocar este nome dele? — provocou Socorro, amiga baiana de coração.

Alguém entendido em felinos já tinha me dito que os gatos assumem a personalidade do nome. Negro de pelo brilhante, Zumbi é homenagem ao herói que desafiou o sistema escravocrata no país e criou uma nação de pretos libertos. Portanto, teria sina de fujão. Até acalmei meu coração quando compreendi o gozo de liberdade que Zumbi mergulhou na hora de vencer os ferros da grade e cair no mundo.

E o Cruzeiro Velho é um espetáculo para os gatos de rua. Descobri uma dúzia deles ao vagar de madrugada. Como bons felinos, todos me olhavam desconfiados, as pupilas dilatavam e o corpo ficava imóvel, como estátua para tentar se diluir no breu da noite. Vi uma gata negra de bucho cheio de filhotinhos, que tinha um andar de rainha. Batizei essa senhora de Nzinga, em memória a uma nobre africana escravizada no Brasil. Ao passar, como uma deusa inatingível, essa aristocrata provocava o alvoroço dos cachorros encarcerados, naquele fuzuê de latidos. Nzinga parecia rir dos algozes. Tentei segui-la quando ela desapareceu pelos becos.

Imaginei como seria lindo se Nzinga e Zumbi se encontrassem e formassem um quilombo felino no Cruzeiro Velho. Ele bem poderia adotar os filhotes e se tornar o pai que não mais poderia ser, caso continuasse a dormir sobre a minha barriga. Tenho que confessar um ato vil: castrei Zumbi. Como um tirano senhor da casa grande, eu privei o guerreiro de enlouquecer com os hormônios exalados por Nzinga. Fiz isso para torná-lo servil, quase virar um obediente cão de estimação aos meus pés. Mas eis que Zumbi, meu gato-rei, honrou a sina do nome e conquistou a alforria em território sem horizonte.

Ali, na noite do Cruzeiro Velho, desejei que ele fosse feliz em sua necessidade urgente de liberdade. Cruzei mais algumas ruas, encontrei ainda Etevaldo, Mariá, Guilhermina, Athaíde, Berta, Apolônia Pinto e Atalito. Todos gatos solitários em suas caminhadas. Nenhum parecia ter encontrado o meu nego-fujão. Voltei para casa, deixei o portão com uma fresta aberta e desmaiei de sono. Quase de manhã, lá estava Zumbi estirado de cansaço. “Ele voltou, o boêmio voltou novamente”, cantarolei de felicidade. Regressou sem Nzinga, a minha rainha da noite. Agora, vou passar a caminhar pelo Cruzeiro Velho sempre a espiar a sua nobreza.

Um comentário:

Laura Elisa disse...

Quando eu comecei a ler sua crônica do dia 5/09/2010 já sabia que o belo Zumbi voltaria. Porque é assim comigo e minha filha ao criarmos Marie.

Ela é um belo exemplar de gato preto da rua. Veio trazida pelas enxurradas das últimas chuvas de Abril com mais ou menos 2 meses (disse a veterinária especializada em gatos). Como, aqui em casa, temos hábito de ver Disney Channel, logo veio na cabeça um nome aristocrático como Marie, mas me arrependi de não chamá-la de Mittes (de Bolt, o super cão). Chamo-a de emergente, uma raça diferente de gato que sobe classe social rapidamente, que sabe como é bom uma "Royal Cannin", mas adora caçar lagartixas, pássaros e calangos. Adora o conforto das minhas almofadas, mas troca por qualquer fresta de janela aberta para curtir do lado de fora. Ela passa o dia passeando, mas dorme dentro. Sabe-se lá se não vai dar na veia e não voltar mais. Sempre digo "Ela volta" e volta. Os meus vizinhos já a conhecem e respeitam a gata preta com guizo azul no pescoço e telefone dos donos. Uma forma de conciliar a vida da rua com a dos donos.

E é assim que fiquei feliz de saber que não sou a única que sofro e aprendo com o meu belo gato preto da rua.