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domingo, 5 de setembro de 2010

O homem-pássaro


Depois de encantar brasilienses com A carta de um anjo louco, Willian Lopes conta como foi a experiência de criar o espetáculo sensação do Cena Contemporânea 2010

  • Sérgio Maggio

  • Daniel Ferreira/CB/D.A Press
    Willian Lopes: “Eu, por ser brasiliense, tenho mais propriedade de entender e conversar com as criações de Niemeyer do que um visitante, por exemplo. Para mim, aqueles prédios da Esplanada são palcos verticais onde posso expressar a minha arte”

    Fotos: Monique Renne/CB/D.A Press
    Um foco de luz e William desce a fachada do Ministério do Esporte.

    Ele traja um paletó preto e começa a dialogar com projeções de imagens e trilha sonora.

    É criada uma dramaturgia visual para a encenação de A carta de

    um anjo louco.Willian então rasga a roupa de burocrata e vira o bobo

    As acrobacias são ponto alto desse momento.

    No gramado, público assiste ao espetáculo deitado em colchonetes.

    Um bobo da corte, um louco do tarô ou um burocrata que se liberta e se lança ao universo do conhecimento. Qualquer um desses três personagens vai marcar, em definitivo, a 11ª edição do Cena Contemporânea Festival Internacional de Teatro, que chega ao fim hoje à noite. Um símbolo que fica na retina de quem se deitou sobre o gramado dos jardins do Ministério do Esporte para vê-lo despontar a 30 metros de altura. Tudo parecia arriscado. O acrobata aéreo trocava de corda no ar e o coração da plateia parava. Riscos? Sem dúvida. Aqui, em terra firme, no entanto, dois carros se chocavam ali na Esplanada, nas imediações do Teatro Nacional Claudio Santoro. O acidente ocorreu, na quinta-feira, bem na hora que Willian Lopes, o protagonista do espetáculo A carta de um anjo louco, dava uns cincos mortais na parede .

    — Nossa, eu não vi essa batida. Claro que sinto medo, mas a loucura de fazer o espetáculo é maior. E depois, viver é o grande risco, observa o brasiliense, que cresceu em Taguatinga e estudou artes cênicas na Universidade de Brasília (UnB).

    Willian Lopes riu quando soube que um espectador brincalhão atribui o acidente à suposta torcida de pescoço de um dos motoristas para vê-lo nas alturas. Sabe que a sua performance aérea é vista amplamente de outros prédios, num cálculo improvável de plateia, como foi no centro de Taguatinga ou na Praça da Sé, em São Paulo, com o grupo Ares, ao qual está associado. Na Esplanada, à noite, foram oito sessões em três dias seguidos. As pessoas chegavam e deitavam-se em colchonetes. Num burburinho, a experiência de observá-lo foi sendo multiplicada pelo boca a boca, torpedos, Twitter, Orkut e Facebook.

    — Lá de cima, a medida que passávamos de sessão a sessão, percebia o aumento de público. Na Praça do Museu, ponto de encontro do Cena, a galera comentava. Teve gente que voltou para ver uma, duas, três vezes. Imaginava essa repercussão porque, pelo que sei, Brasília ainda não tinha experimentado esse tipo de intervenção urbana, destaca.

    De fato, foi inédito dançar e realizar acrobacias sobre projeções visuais numa parede de ministério ao som de uma trilha sonora inquietante. Willian Lopes faz história e inaugura um novo diálogo entre arte e arquitetura na capital federal.

    — Eu, por ser brasiliense, tenho mais propriedade de entender e conversar com as criações de Niemeyer do que um visitante, por exemplo. Para mim, aqueles prédios da Esplanada são palcos verticais onde posso expressar a minha arte, defende.

    Imagens
    Em São Paulo, Willian Lopes afinou a linguagem artística com o grupo Ares. Foi para lá, a princípio para aprender acrobacias em cama elástica. Mas percebeu que deveria centrar o aprendizado em técnicas verticais. Há dois anos, ele estuda o projeto A carta de um anjo louco. Ficou em primeiro lugar no concurso público da Bolsa Funarte e recebeu patrocínio do Fundo de Apoio à Cultura (FAC). Desenvolveu cada projeção de imagens para dialogar dramaturgicamente com as ações físicas e a trilha sonora. A segurança também foi reforçada. Em cada intervalo de sessão, três profissionais checavam fisicamente cada centímetro dos 200 metros de corda. A menos resistente sustenta até uma tonelada, sendo que Willian pesa 70 quilos.

    — Esse aval cultural e técnico abriu as portas do ministério para a realização do projeto, conta.

    Só durante os ensaios, foram três ao todo, é que houve um pequeno incidente. A polícia chegou apressada. Provavelmente, foi avisada de que havia um “louco” querendo se jogar da cobertura do Ministério do Esporte. Para alívio dos profissionais, o doido em questão era um artista, que ousa apenas lançar os seus sonhos para cima.

    NA CIDADE
    Willian Lopes desistiu de voltar de mala e cuia para São Paulo. Só vai para a capital paulista quando o grupo Ares o chamar para alguma performance. Vai ficar por aqui e apostar no teatro que acredita. A carta de um anjo louco busca patrocínio para nova temporada no DF. Enquanto isso, ele dá cursos de interpretação teatral e batalha também para sair em temporada pelo Brasil.

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