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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O coração de dona Cora

Por Sérgio Maggio

O telefonema de uma avó desesperada abalou emocionalmente o meu último plantão na redação do Correio. Atendi a ligação de uma senhora que não dormiu, preocupada com o neto de 16 anos. Ele tinha saído no começo da noite de sábado e até as 11h do domingo não voltara para casa, no Gama. A voz embargada me deixou nos braços daquela mulher, disposta a fazer qualquer coisa para trazer o menino. Não era a primeira vez que o garoto fazia uma coisa dessas. E esse era justamente o maior temor de dona Cora, vamos chamá-la assim.

— Da última vez, chegou aqui bêbado, meu neto de apenas 16 anos, desabafou.

O rapaz descobriu um circuito de festas em chácaras à beira da estrada que liga o Gama a outras cidades do DF. Dona Cora encontrou, no quarto, propagandas desses encontros. Algumas prometiam bebidas baratas, muito funk e DJs às pencas. Ela se desesperou. Já tinha denunciado à polícia e nada. Naquela manhã, ligou para o Correio justamente para pedir socorro. Não queria perder o neto, menino estudioso, para a bebida e todos os perigos fronteiriços que o álcool representa.

— Só de pensar no que pode acontecer numa noitada dessas fico apavorada, confessou.

Ninguém deveria apavorar o coração de uma avó. O de dona Cora estava miúdo de dor, ela mesma revelou ao telefone. Temia que as forças desaparecessem antes de resgatar o seu neto dessas farras. Não é difícil me colocar no lugar dela. Perdi um irmão para o álcool e as drogas. E ele começou quando tinha 16 ou 17 anos, na idade do neto de dona Cora. Nossa avó Firmina já era uma senhora de 80 anos, quando essa “bomba” estourou bem na nossa sala de estar. Ela sofria a olhos vistos. Meu irmão a respeitava muito, mas ele não podia fazer nada. Quando minha avó ficou diante dessa tragédia, a situação já estava descontrolada.

— Meu filho, será que você é capaz de entender o meu drama? indagou dona Cora.

Fiz silêncio. Não tive coragem de me expor naquele momento. Racionalizei como um profissional que ouve dramas alheios e sugeri a pauta para a editoria de Cidades. Mas tive toda a paciência do mundo para ficar com dona Cora ao telefone o tempo suficiente para acalmá-la. Era como se eu estivesse acalentando a minha avó Firmina, que morreu sem saber ao certo qual seria o destino de meu irmão. Levou para o túmulo essa agonia.

Dona Cora terminou essa ligação também sem saber como e quando o seu neto retornaria. Não conseguiu ajuda efetiva. Mas o coração de avó conhece as verdades:

— As autoridades já sabem, mas não fazem nada. Não há fiscalização nessas festas à beira de estrada. Nem existe controle para a entrada de menores e o acesso a bebidas e a outras drogas.

E esta crônica só se fez crônica para dar este recado!

Um comentário:

Maria Cecília disse...

AH, querido, que coisa linda e corajosa, tô em lágrimas