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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Jabuti do Cerrado


Por Conceição Freitas
Cinquenta anos depois de Clemente Luz escrever as primeiras (e belas) crônicas sobre Brasília, em Brasília, a cidade revela ao país que nos vazios do urbanismo moderno surge uma vigorosa produção literária. Sete autores brasilienses estão entre os finalistas do Jabuti, o mais desejado prêmio literário brasileiro. É de dar gosto. A capital do país não produz apenas político ficha suja, segregação e desigualdade social.Dentro do quadradinho há gente muito boa produzindo textos de qualidade—contos, poemas, ensaios, reportagens, literatura infantil.
A lista dos indicados desfaz o complexo de vira-latas literário que sempre acompanhou a capital do país.Dissolveu-se aquela sensação de que os escritos brasilienses ainda não tinham vigor suficiente para ocupar os lugares nobres das livrarias.
Sergio Maggio, José Rezende Jr., Graça Ramos, Roger Mello, Reynaldo Jardim, Anderson Braga Horta e a dupla Paulo Humberto Ludovico de Almeida e Valéria Cabral (da Fundação Athos Bulcão) botaram a literatura brasiliense no seu lugar de direito. Afinal, como escreveu Lucio Costa no texto fundador da nova capital, ela foi planejada “para o trabalho ordenado e eficiente,mas ao mesmo tempo cidade vida e aprazível, própria ao devaneio e à especulação intelectual, capaz de tornar-se, com o tempo, além de centro de governo e administração, um foco de cultura dos mais lúcidos e sensíveis do país”. Que assim seja.
Ressalte-se que o Relatório do Projeto do Plano Piloto de Brasília é um texto merecedor de um Jabuti na categoria Invenção de uma Cidade. O arquiteto Lucio Costa, todos reconhecem, compôs uma obra literária, lírica, concisa e elegante para detalhar o surgimento da nova capital do país. Finalmente, a cidade fez valer tão nobre herança.
Aos 50 anos, Brasília conquistou maturidade literária.Neste mesmo 2010, pelo menos dois brasilienses ganharam prêmios importantes.
O poeta Ronaldo Costa Fernandes levou o prêmio de melhor livro de poesia, honraria concedida pela Academia Brasileira de Letras
a Máquina das mãos. A ensaísta Lígia Cademartori trouxe para casa o Prêmio Cecília Meireles, categoria melhor livro teórico. A obra premiada: O professor e a literatura, para pequenos, médios e grandes. Na semana passada, o crítico literário Paulo Paniago ganhou o concurso de melhor resenha sobre o escritor Philip Roth promovido pelaCompanhia das Letras.
(Que resenha, hein, Paniago? À altura de Roth, o escritor que não me deixa dormir e me faz rir antes que eu chore). A Brasília que agora desponta não nasceu do nada. Já abrigou grandes nomes da literatura brasileira.Um deles participou da construção da cidade, o engenheiro-
calculista e contista Samuel Rawet, morador da Asa Norte e de Sobradinho, onde foi encontrado morto em 1984. Cassiano Nunes, Fernando Mendes Vianna, José Santiago Naud, Oswaldino Marques são alguns dos mais respeitáveis nomes da literatura feita em Brasília.
Como diz Sergio Maggio, a indicação por si só já é um prêmio. Para os indicados, pra cidade e pra nós, leitores do que é belo, inteligente e forte.

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