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segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Histórias de semáforos

Sérgio Maggio

Os semáforos são territórios de vida. Na Bahia, chama-se poeticamente de sinaleira o espaço em que o motorista é obrigado a frear a máquina para aprender a respeitar o direito dos outros, o passante e o motorizado. Na última semana, andei de olhos esbugalhados para ver o que se passa neste não lugar urbano e transitório do Plano Piloto. Vi poesia, luta, preconceito e medo. Nesses dias de seca, não encontrei os palhaços, os malabaristas estrangeiros nem os que engolem fogo. Sempre sou plateia para eles. Das muitas paradas, seis me tiraram do confortável tempo de espera.

(W3 Norte, altura da 506/507). Uma senhora está sentada ao lado de uma placa que anuncia churrasco a um bom preço. Formosa e enfeitada de bijuterias, ela me olha sorridente. Pergunto o que faz ali com aquele calor infernal de 32 graus e umidade caindo sabe-se lá a quanto. Ela diz que toma conta daquele cartaz. Sinal verde. Engato a primeira e deixo a mulher esperando o tempo passar. Sigo pensando: “Século 21 e ainda se paga um ser humano para tomar conta de uma propaganda”.

(Eixo Monumental, sentido Memorial JK, altura do Clube do Choro). O meu carro emparelha com o de três senhores, na casa dos 70 ou 80 anos. Eles ouvem, com som na altura, uma moda de viola. Todos estão com chapéus de peão com a palavra “Brasil” bordada em verde e amarelo. Eles trazem o país na cabeça e são do tempo em que o chapéu era um objeto de respeito. Vou embora mais patriótico.

(Detran sentido Autódromo). Um homem engravatado ouve uma música que não consigo identificar num confortável Renault Mégane. Ele não vê que tem um rapaz negro e deficiente a pedir dinheiro aos motoristas. De repente, o cidadão se aproxima. Rápido, ele aperta o botão e o vidro elétrico sobe e o isola com segurança. O burocrata parece respirar aliviado. Do meu carro, observo o rosto do homem a tentar falar alguma coisa. O trânsito é liberado. Eis uma cena paulistana-baiana-carioca no semáforo brasiliense.

(Sudoeste, sentido Eixo Monumental). Um senhor agitado e falante irrompe com uma pregação que mistura Evangelho, conselhos pessoais e pedido de dinheiro. Ele tem uma alegria contagiante e brinca com os mais bem-humorados. Há gente que o conhece. Uma moça entrega um saco de pão. Ele grita, como profeta: “É o alimento de Jesus”. Eu buzino para esse senhor. Ele levanta as mãos para o alto e diz: “Glória”!

(Setor de Diversão Sul, sentido Eixinho). Estou distraído quando um adolescente negro e alto põe a mão na porta do carro, como se estivesse procurando o pino de segurança. Ele diz que precisa de dez centavos e que não sai dali sem os tais dez centavos. Está visivelmente transtornado, possivelmente pelo uso de crack. Calmamente, digo que não tenho dinheiro algum, mas que passarei de novo naquele local. O carro em minha frente se desloca, engato a marcha e sigo. Do retrovisor, vejo o rapaz se encontrar com três meninos. Todos estão visivelmente drogados.

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