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domingo, 29 de agosto de 2010

Um louco no ministério

Foto: Aninha Franco

por Conceição Freitas


Até aquele dia, ela era apenas a fachada branca de um ministério-padrão, parede da burocracia, superfície indiferente de um prédio de brises verdes. Desde que começou o Cena Contemporânea, a pele fria do Ministério dos Esportes se transformou no palco de uma revelação. Um jovem, atrevido e corajoso ator, o brasiliense William Lopes desce e sobe a casca lisa do prédio para avisar ao espectador que sua vida pode estar reduzida a uma chatice vestida de terno e gravata (ou de tailleur e salto alto).

O ator-acrobata-atleta desce a parede sustentado por dois cabos de aço enquanto o público assiste ao espetáculo deitado na calçada. Ele está de terno, gravata e pasta de executivo. Parece sufocado na sua armadura de burocrata. Pensará em suicídio? É provável, mas o personagem encontra uma saída antes do abismo. Ele vai arrancando a roupa, uma manga do terno, a outra, a parte da frente, a de trás, uma perna da calça, a outra. Livre da carcaça, ele vai experim entando voos, saltos, rodopios.

Aos poucos, o homem vai expandindo os movimentos, saltando em volta do próprio corpo e deixando o público temeroso de que algo de terrível possa acontecer no mundo da realidade — afinal, William Lopes faz acrobacias a mais de dez metros acima do solo. Quem está deitado na calçada olhando para o acrobata desafiando o cabo de aço fica em suspenso diante do risco que, supomos, ele está correndo.

Risco? O ator se sustenta em aço. Arriscada é a vid a, é isso que ele disse aos espectadores do festival de teatro. De terno é arriscado, e sem terno, também. Então, se nada é seguro, por que se subjugar ao terno e gravata? O engravatado é a metáfora de uma vida infeliz. Em A carta do anjo louco, nome do espetáculo de William Lopes, o personagem escala a fachada lateral do ministério como quem se liberta da pessoa que ele estava sendo e não era. E, aos poucos, vai se anunciando a pessoa que é e nunca tinha tido a coragem de ser.

Enquant o o anjo louco faz alpinismo, holofotes lançam grafismos na parede, imagens que lembram um catavento, o universo pontilhado de estrelas, explosões de luz acompanhadas de efeitos sonoros ao ritmo das mudanças que vão acontecendo com o personagem. William Lopes, que também é o criador do espetáculo, diz que se inspirou em O louco, a carta do tarô. A carta, me diz a Wikipédia, representa “busca, desapego, impulso, excitação”. Pode significar a quem recebeu a carta que a pessoa precisa partir em bu sca de algo que procurava, “como um desejo que de repente extravasa, uma busca que foi sufocada durante muito tempo.”

O anjo louco ocupa o espaço urbano do poder e da burocracia, tira do edifício a sua imponência ministerial e devolve o sonho ao seu lugar de origem. Com todos os riscos que, de qualquer modo, todos estamos correndo o tempo todo.

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