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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Till, é teatro popular de primeira


Sérgio Maggio

Como era esperada a volta do
Grupo Galpão às ruas. Não que a
companhia não tivesse feito obras primas
para os palcos convencionais—
O homem é um homem e
o Inspetor geral são só duas delas.
O fato é que não saem do imaginário
popular do brasileiro do século
20 a força e a alegria da trupe
em ocupar o espaço público em
Romeu&Julieta (1992).Till, a saga
de um herói torto já nasce com essa dimensão artística:
a da responsabilidade
do retorno a uma estética
quemarcou o teatro de ruano
Brasil e o fez dialogar em pé de
igualdade com o mundo.
Till, a saga de um herói torto
põe o Grupo Galpão no melhor da
sua comédia popular.O texto de
Luís Alberto de Abreu e a direção
de Júlio Maciel trabalham para
potencializar as virtudes de uma
companhia que sabe o momento
certo de fazer rir e o exato instante
de levar o espectador a refletir
acerca de questões éticas e filosóficas.
Numa suspensão dramática,
parece que saímos da paisagem
de traços modernistas de Oscar
Niemeyer e nos transpormos para
uma feira medieval, onde as trupes
mambembes constituíam o
seu teatro como ganha-pão.
Um aparente simples tablado é
um engenhoso cenário para se
processar essa magia teatral.As soluções
cênicas para o aparecimento
e desaparecimento das personagens
remetem ao tempo do ilusionismo
teatral. No entanto,tudo é contraposto
pela revelação dos bastidores,
criando na visão do espectador
uma fusão contemporânea.
Em cena,o Grupo Galpão é essencialmente
coletivo. Fica difícil fixar os olhos
neste ou naquele ator diante do conjunto no qual cada aparição em cena
é valorizada com cuidado de
ourives.Os atores se desdobram em
muitos personagens e emcoro.Ainda
emocionam quando formam
uma orquestra para interpretar
criações belíssimas do maestro Ernani Maletta
(hoje, uma das preciosidades do Galpão).
Com linguagem popular e
deliciosamente escatológica, Till
faz a plateia pensar poeticamente
sobre ética em tempos em que a
palavra se esgaçou diante de tantos
crimes morais. Numa construção
dramatúrgica simples,
mostra que a revolução está,em
primeira instância, na consciência
de cada um e a utopia reside
no campo da imaginação.
Ao final, ainda é possível sonhar
comum teatro capaz de tocar
tão fortemente o povo—seja
do Plano Piloto, seja das comunidades
mais isoladas do acesso cultural.
Como um político em campanha,
a montagem Till deveria
esquadrinhar o Brasil. Subir os
morros, atravessar os rios, chegar
aos grotões. Essa é a utopia que o
Grupo Galpão imprime diante da
plateia: de um teatro popular possível
e ao alcance de todos.

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