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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Sombras desveladas

Crítica// As cadeiras

julho 24, 2010

Foto: Thiago Sabino

Crítica de As cadeiras, de Jorge Sarmiento (Peru)

Por Sérgio Maggio

A partir de uma das obras mais potentes de Eugene Ionesco, As cadeiras, o diretor peruano Jorge Samiento articula o jogo de alucinação proposto pelo autor numa chave que dialoga com vários elementos de linguagem tradicional do teatro. Da alusão das sombras ao clown, de movimentos circenses ao bufão, as articulações em cena dialogaram, numa forma convencional, com a atmosfera vazia dos personagens devastados pela memória.

A opção cênica explicita a proposta dramatúrgica, o que faz por um lado significar algumas das incoerências e lacunas, pontos caros da obra de Ionesco. Desvela o que, em alguns momentos, é o ponto nervoso, o que deveria continuar nos interstícios da cena. A sensação de impotência do espectador de querer racionalizar sobre o nada, o vazio, por vezes, parece ser aliviada.

Em contrapartida, as contradições entre o corpo ágil dos atores e a atmosfera de memórias em estilhaços levaram à cena para um nível de teatralidade capaz de impor questionamentos sobre a força, com que esse passado, puído pelo tempo, pode ressurgir no jorro das lembranças. É o que ocorre quando o velho casal se transpõe para tempos que não cabem mais no corpo envergado. Apesar do “espanhol peruano” ter um acento vertiginoso, o que é barreira natural para ouvidos brasileiros, As cadeiras pôs em discussão a angústia da memória que se desfaz, da fragilidade da vida que envelhece, pontos intensos e urgentes na dramaturgia atemporal de Ionesco e de todo um período pós-guerra.

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