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terça-feira, 10 de agosto de 2010

Potente obra de arte

Crítica - Êxtase

Sérgio Maggio
  • Lenise Pinheiro/Divulgação
    Os personagens díspares de Êxtase equalizam-se e provocam inquietações incalculáveis

    O tempo de intimidade entre o espectador e a personagem Jane (interpretada magistralmente por Erika Puga) é largo quando a moça, dona de sonhos deslocados, rompe as inquietações internas e canta I will always love you. Ela dobra-se, quase em gozo, na poltrona para interpretar o refrão com a diva Dolly Parton, cujo vinil roda no toca-disco. Até então, Jane comunicava-se com os estranhos tipos que habitam a sua sala de estar com olhares e pulsões internas. Bebe e fuma sem parar e tenta conectar, com amigos do passado, os fragmentos que restaram da menina de outrora, hoje um mulher tragada pela angústia da megalópole, que engole e deglute, sem piedade, esperanças e individualidades dos que chegam para ocupá-la.

    Quando acompanha I will always love you na voz de Dolly Parton, Jane se refaz diante de uma plateia já hipnotizada pelos tipos criados pelo dramaturgo inglês Mike Leigh para a peça Êxtase, em cartaz no Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). A música pop é apenas um bote salva-vidas para os personagens devastados executarem a difícil travessia de viver para manter o aluguel em dia. O diretor Mauro Baptista Vedia compreende essa complexidade e põe o espectador diante de um espelho, por vezes cruel, mas extremamente urgente. As referências londrinas são tão universais e apropriadas a Brasília, por exemplo, capital que recebe migrantes do mundo para realizar sonhos, muitas vezes pagos com a solidão e perda de referências.

    Numa noitada, Jane recebe amigos e “desconhecidos” que acentuam seu universo retalhado. A direção realista põe a plateia de voyeur para personagens tão díspares, que fica difícil acreditar que aquela montagem vai se equilibrar e ficar a favor da narrativa. Amanda Lyra, que faz de Jean um espetáculo à parte, Mário Bortolotto, que transforma Mick na ressonância mais pop da peça, e Eduardo Estrela (Leo), contraponto poético à dilacerada Jane, equalizam-se de um jeito que torna Êxtase uma po tente obra de arte, capaz de provocar inquietações incalculáveis. Arrisque-se!

    A temporada estende-se até 26 de agosto, sempre de terça a quinta, às 19h30 (não recomendado para menores de 14 anos). Ingressos: R$ 15 e R$ 7,50.

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