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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A mala velha de couro



Sérgio Maggio

Na última quarta-feira, eu tinha uma missão pessoal e intransferível: encontrar uma mala velha de couro, daquelas que, provavelmente, os candangos colocaram os seus pertences e vieram construir a nova capital da República. Estacionei o carro no pátio externo do Conjunto Nacional e estabeleci a rota entre o shopping e o Setor Comercial Sul (SCS). A caminhada incluía a passagem pela Rodoviária e a parada no Conic, onde há umas lojas populares que vendem produtos únicos.
Como é surpreendente abandonar o carro em Brasília e encarar as suas calçadas, galerias e subsolos . Engolida pelo horizonte de quem passa a 60 quilômetros por hora, a vista não deixa a gente perceber os detalhes nos vãos da paisagem. Lá de cima da plataforma do Conic, paro para observar um grupo de sete pessoas, todas envoltas por cobertores de algodão cinza, daqueles que as pessoas compram para doar aos necessitados. Estavam sentados lado a lado a ouvir atentamente uma senhora, espécie de líder do grupo. Imaginei o que conversavam, qual o tema do dia. Divaguei enquanto pude, até lembrar da mala. Parti e levei aquela imagem de “uma singela reunião de família”. Atravessei a passarela da Rodoviária. Encontrei pessoas rente ao chão a pedir “alguma coisa, qualquer coisa”. De carro, não conseguiria vê-las. Uma estava debruçada no solo. Só falava com os olhos. Outra tocava uma viola e cantava um sambinha gostoso, que dava até vontade de trocar os passos cotidianos por dança. Mas à frente, ao sair do Conic para o SCS, outro ser humano estabelecia uma língua de som indecifrável. A seguir, mais outro, outro e outro… Na busca pela velha mala de couro, parecia que só encontrava mendigos e moradores de rua na vitrine urbana à céu aberto. Nessa rota, havia também carros de som de candidatos diversos. Um deles anunciava os feitos do atual presidente em ter “acabado com a fome e reduzido a miséria no país”. Outro, em favor de um velho ex-governador dizia, que “aquele candidato” fez um trabalho em prol do fim das desigualdades no DF. O último mendigo que vi dormia o sono dos justos quando jingles e promessas se cruzavam aos sons naturais da cidade. Voltei para o meu mundinho de carro sem a mala velha de couro. Só achei modelos de rodinhas.

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