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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Galpão faz o festa em Brasília

    Sérgio Maggio


O recado foi para os candidatos estilo cara de pau — aqueles que insistem em fazer campanha mesmo arrastando a quilométrica folha corrida de improbidades. O tempo de teatro que toma do DF é dedicado aos políticos ficha limpa. E também às crianças que crescerão, porventura, numa era de acesso à biblioteca e à cultura pública. Quem avisa, bem alto ao microfone, é Guilherme Reis, curador e organizador do Cena Contemporânea — Festival Internacional de Teatro. Ele fala bem ali, vizinho dos gabinetes da Esplanada dos Ministérios. Foi de lá, do vão espaçoso do Museu Nacional Honestino Guimarães, que o Grupo Galpão armou o tablado e abriu, anteontem, os trabalhos da 11ª edição da mostra teatral.

Com instrumentos musicais, os intérpretes do Grupo Galpão levantam o público brasiliense à beira da Esplanada: festa para os ficha limpa - (Carlos Moura/CB/D.A Press)
Com instrumentos musicais, os intérpretes do Grupo Galpão levantam o público brasiliense à beira da Esplanada: festa para os ficha limpa
O vão vazio e monumental, projetado por Oscar Niemeyer, ficou com cara de praça, e o teatro armado parecia de uma das mais remotas feiras. Os três narradores, Borromeu, Doroteu e Alceu, subiam no tablado, anunciavam o nome impronunciável do dono da história, Till Eulenspiegel, e avisavam que a saga se passava na Alemanha medieval.
— Ainda somos todos cegos. Isso me irrita muito, diz o personagem Borromeu.

Do lado de cá da plateia, a atriz e arte-educadora Teí Silva se dobrava de rir, numa espécie de “onda de gargalhadas” que movimentaria o público de tempos em tempos. A localização da moça na arquibancada, central e privilegiada, já indicava que não se travava de uma espectadora de ocasião.

— Sou fã, acompanho tudo do Grupo Galpão. Vi todas as montagens que vieram a Brasília. É a melhor companhia de teatro do Brasil, sentencia sem titubear.

Fã confessa do Galpão, a atriz Teí Silva foi conferir os bastidores da peça Till - (Carlos Moura/CB/D.A Press)
Fã confessa do Galpão, a atriz Teí Silva foi conferir os bastidores da peça Till
E foi com esse olhar apaixonado que ela seguiu os 90 minutos de montagem. De lá de cima da arquibancada, via-se a cabeleira vermelha de Teí Silva quicar de tanto rir com a comédia popular do Grupo Galpão, que se estabelece numa comunicação estupenda com os espectadores. Estilosa, ela ficou impressionada com os figurinos baseado no lixo e, claro, com a força da narrativa, que desembocava no palco numa movimentação intensa dos atores.

Alçapão do Diabo
Cheio de alçapões, o tablado era uma atração à parte. Dali, saía o Diabo, descia a “consciência” negociada do personagem e desaparecia Till, um anti-herói do universo mítico. Para os brasileiros, ele é Macunaíma. A movimentação dos atores foi um espetáculo à parte. Os bastidores estavam revelados e se constituíam um dos focos dos espectadores. O estudante de letras Caio Santiago foi fisgado pelo que chamou de “magia do teatro”:

— Fiquei fascinado com esses bastidores. Estou assistindo à série A cura e pude ver a força da atriz Inês Peixoto (Till) dentro e fora do palco. É impressionante a qualidade do Grupo Galpão.

Com instrumentos musicais em mãos, os intérpretes do Grupo Galpão seguem contando uma história de um típico sujeito partido em pedaços (o corpo, a consciência e a alma). A peça parece querer acabar, enquanto o público deseja mais. Teí Silva aplaude de pé e grita em coro com a plateia aos pés da companhia mineira, que fica ali misturada a todos, quando o espetáculo chega ao fim.

A atriz Teuda Bara, dona da deliciosa gargalhada do Galpão, corre para a banquinha que vende os produtos do Grupo Galpão. Ela e o diretor Júlio Maciel negociam joias como DVDs, programas, CDs da companhia. Inês Peixoto e toda trupe ficam à beira do palco a guardar os objetos de cena. De longe, observa-se o fã Caio Santiago conversar com Inês, e Teí Silva ser fotografada para o Correio perto dos objetos de cena. É mesmo uma festa de congraçamento, que seguiu madrugada adentro com os DJs da Criolina. Começou o tempo em que o chão da praça vazia do museu vira o terreiro dos sonhos.

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