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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Favela e cachorro

Sérgio Maggio

Ninguém diria que José Serra viraria samba de favela e Dilma Rousseff estaria tão emotiva. Há coisas que só são possíveis no horário eleitoral gratuito, que começou com a pegada de primeiro capítulo de novela, com personagens apresentados em sua intimidade, cada um mais doce que o outro. Serra virou Zé, “o homem que vai ficar no lugar de Lula da Silva”, como conta o sambinha de mesa numa favela de estúdio mais falsa do que uma nota de R$ 7. Sorridente, o candidato do PSDB associou-se a histórias de brasileiros como dona Maria, do Maranhão, numa aparição que, como uma cantilena, repetiu as palavras “humilde” e “modesto”. Numa edição truncada, com profusão de narrativas e informações, o Serra simples se diluiu à figura do homem público mais bem aceito nos círculos sociais. Ao fim, a sensação de um tumulto estético.

Bem na linha do filme Lula, o filho do Brasil, o programa de Dilma Rousseff quis dar a tônica de “documento verdade”, com inúmeros depoimentos sobre a capacidade de “fibra, coragem e dignidade” da candidata do PT. O primeiro deles, lógico, do presidente Lula. A passagem pela luta armada passou assim como um furacão, rápida e com ênfase nos anos de presídio. E Dilma surgiu como uma mulher excessivamente destemida, mas capaz de se emocionar com “o povo”. O estranho foi focar tanto tempo de relação da candidata com o cão de estimação.

Com um tom burocrático e longa narração em off, cheia de chavões sobre meio ambiente, Marina Silva apareceu e desapareceu como um apagão. O primeiro dia do programa eleitoral do PV passou em cinzas nuvens. Já o de Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) foi simples, curto e grosso.

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