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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Crítica// Tempo de comédia


Julia Carrera eleva o espetáculo quando personagem cresce na trama

Riso acelerado


Sérgio Maggio


É bom preparar o maxilar. O espetáculo Tempo de comédia, em cartaz até domingo, no Teatro 1 do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), foi calculadamente feito para rir. Não aquele sorriso descontrolado, mas um construído por um texto articulado a ideias inteligentes. Embora o argumento de um robô que se humaniza é algo bem explorado pela indústria do entretenimento, a obra de Alan Ayckbourn ultrapassa a aparente mesmice ao pôr diante do espectador múltiplas questões, como a decadência das relações interpessoais e dos produtos culturais. No nosso caso, a novela caiu como uma luva na adaptação brasileira. Quem quiser pode até ler o espetáculo por esse viés do “lixo cultural”, mas a obra de Ayckbourn propõe discussões dialéticas e reflexões sobre relações de poderes.
Parte delas, no entanto, fica no meio do caminho por conta de uma acelerada e objetiva direção, que aproveita e potencializa cada deixa do texto, criando decerto ótimas sequências, mas deixando escapar, por exemplo, nuances como a angústia e a impotência das personagens actóides diante de quem as conduz. A diretora Lili Fonseca constrói toda uma estratégia para se fazer rir, na troca de marcas e de personagens, por exemplo. Mas, às vezes, abusa de redundância gestual dos atores para reforçar um humor que é intrínseco ao texto. O ritmo da montagem ressente-se apenas na primeira parte, que gira em torno de quase uma única situação: a encenação dos actóides (atores-robôs) na novela, o que arrasta o primeiro tempo da narrativa. Quando o texto avança e a personagem Jacie, de Julia Carrera, emancipa-se o espetáculo cresce. Atenua até o marcante trabalho de Luiz Damasceno nesse primeiro e arrastado começo. Julia Carrera não só torna a humanidade da actóide mais explícita como evidencia o trabalho dos bons e ecléticos atores em sua volta. A dificuldade maior é de Eduardo Muniz (também tradutor e mentor do projeto), em parte pelo personagem Adam, mocinho sobrecarregado de clichês da comédia romântica. Com maior equilíbrio em cena, Tempo de comédia segue divertindo sem, talvez, provocar tanto quanto poderia.

Tempo de comédia
Teatro 1 do Centro Cultural Banco do Brasil (SCES, Tc. 2, Cj. 22; 3310-7087). Hoje, às 21h; amanhã, às 18h e 21h; e domingo, às 17h e 20h. Ingressos: R$15 e R$ 7,50 (meia). Não recomendado para menores de 12 anos.

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