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sábado, 19 de junho de 2010

Escriba apaixonado

Sérgio Maggio
sergiomg.df@dabr.com.br
Todos os leitores de José Saramago têm tatuada, ao menos, uma frase na alma. Mesmo quem nunca o leu, sabe que se trata de um dos grandes escritores do mundo. A escrita de Saramago é um jorro. Quando se mergulha nela, somos suavemente erguidos numa onda crescente, sem quaisquer obstáculos. O autor dizia que o exercício de escrita é uma tentativa de reproduzir uma música. Assim, as narrativas soam como composições em que cada frase tem sonoridade própria. São frases-canções, como “houve um tempo em que as palavras eram tão poucas que nem sequer as tínhamos para expressar algo tão simples como Essa boca é minha, ou Essa boca é tua”, de O homem duplicado.

As muitas bocas de José Saramago falavam um português universal. A língua esteticamente aprimorada para contar o que, por vezes, não era politicamente permitido e agradável. A morte, para ele, era grafada em letra minúscula, como se ele reduzisse a sua prepotência avassaladora a um substantivo comum como tantos outros. “Ate onde sabemos, a morte não tem gênero. Mas não tenho dúvida que, no meu livro, a morte tinha de estar no feminino”, refletia.

Não havia hierarquias no palavreado de José Saramago. O império português demorou para perceber essa perda de status. A igreja católica, o vaticano, o papa — eram assim escritos como vocábulos mortais. Daí, tanta incompreensão em torno do criador, que fustigava a ira de quem sempre foi acostumado a ter o natural destaque. “As palavras têm seu protocolo, seus próprios títulos aristocráticos, seus próprios estigmas plebeus”, avisava.

O homem que não fez festa nem soltou foguetes quando foi agraciado com o Nobel de Literatura gostava mesmo de ser escutado, porque sua leitura tem voz. Era um escriba apaixonado. Tinha disciplina. Não reduzia o dia às 24 horas. Para ele, a contagem era outra. Duas páginas escritas. “Ao fim do ano, serão um livro de 800 páginas.” Foi assim que transcorreu a vida, com a oração, a frase e a palavra como propulsores do tempo. Ontem, parou tudo. “Mas ele não era imortal em alguma academia?”, indagou a poeta, dramaturga e historiadora Aninha Franco. Mesmo sem crer em qualquer possibilidade de continuidade após a morte, José Saramago ficará até o dia em que o mundo se espatifar em pedacinhos.

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