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sábado, 1 de maio de 2010

A fogueira da ignorância

Sérgio Maggio

Na Idade das Trevas, o conhecimento podia significar a morte. As bibliotecas eram propriedades eclesiásticas, ali devassadas somente por homens privilegiados. A Igreja era a dona das obras. Não podiam ser compartilhadas com os “pecadores”. Como conta Ana Paula Mathias de Paiva, em A aventura do livro experimental, eram consideradas um bem dos mosteiros ou abadias. Ai de quem se atrevesse a folheá-las.

No século 21, o conhecimento está por toda parte. Chega até pelos celulares. A internet e as mídias sociais reposicionaram o indivíduo dentro da sociedade. Ele tem voz no blog, no Twitter, no Facebook. O livro, no entanto, continua a ser o portal do saber, da emancipação, do fim da ignorância. O conteúdo pode fomentar ideias e fornece ferramentas para lidar com a difícil arte de viver, sobretudo, com ética.

No Brasil, esse país que apontam como gigante mundial, as lacunas que separam os séculos ainda racham em abismos. Ficamos diante de um nesta semana. A cratera se abriu no Recife. Motivado por vereador líder da bancada evangélica, André Ferreira (PMDB), o livro Mamãe, como eu nasci?, de Marcos Ribeiro, referência nacional em educação sexual, foi recolhido pela Secretaria de Educação. A capital pernambucana recuou à era medieval. A ação se remete ao passado quando os desenhos do corpo humano nu eram arrancados dos compêndios de anatomia em escolas religiosas.

Voltada para o público de 7 a 10 anos, a obra aborda, em cunho didático e responsável, a educação sexual. Masturbação, por exemplo, é explicada com delicadeza, ultrapassando o estigma da demonização. O livro foi avalizado por especialistas do quilate do educador Paulo Freire.

Se temos um ensino público laico, por que um requerimento motivado por dogmas religiosos é impelido a toda uma comunidade? Sem educação sexual, as crianças viram adolescentes que não entendem o conceito de sexo seguro e responsável. A origem de problemas como a gravidez precoce, a contaminação de DSTs, sobretudo a Aids, está na falta de diálogo e no preparo da criança para lidar com o sexo. No Recife, preferiram acender a fogueira da ignorância.

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