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domingo, 23 de maio de 2010

Crítica// As tentativas contra a vida dela


Camilla Coutinho/Divulgação


A verdade é inatingível

Sérgio Maggio

Preste a atenção em cada fragmento colocado em cena no espetáculo Tentativas contra a vida dela, se não todas as “mensagens podem se apagar” diante de si. A tensão entre a velocidade da informação fugaz e o risco de ela desaparecer diante dos olhos instiga o jogo contido no texto do inglês Martin Crimp e potencializado no espetáculo de Felipe Vidal. A peça acontece nessa fricção. Quanto mais esse jorro de sentidos se acentua, mais o espectador consegue percorrer os muitos caminhos propostos pela obra, que tritura conceitos de verdade, identidade, incomunicabilidade e angústia do homem contemporâneo, exacerbando a importância do “ponto de vista” como um estilhaço para se aproximar de um inatingível real.



O tempo espetacular de 105 minutos de narrativa, que pode ser pesado para quem não salta com a proposta, por exemplo, é relativo para cada espectador, que se relaciona com essa montagem de forma singular. Alguns correm o risco de sair saturado de tantos elementos jogados à sua frente. Se ocorrer, é muito mais uma opção de quem se negou a dialogar do que um equívoco de escolha dos criadores do espetáculo. Esse livre-arbítrio que Tentativas contra a vida dela propõe é coerente com a sua própria natureza — nada impositiva. Ao espectador, é colocada a sensação de impotência para dar conta de verdade.



Quando se compreende isso, o espetáculo se redimensiona. O que, sem dúvida, é o mais impactante na montagem, que teve estreia nacional no Teatro 2 do CCBB e segue em temporada, de quinta a domingo, até 6 de junho. Ao longo das 17 situações para o teatro, são apontadas possibilidades diversas para compor uma “mulher” que de fato é inatingível, não é finita como uma personagem, nem acaba com teatro de começo, meio e fim. Os sentidos atribuídos a uma suposta pessoa, no caso Anne, são contraditórios, surreais, como é da natureza do ser humano, mas espantosamente complementares.



Todos somados, no entanto, são incapazes de atingir a magnitude de ser Anne. Num dado momento, todas as referências convergem a um ponto. As bonecas Barbies destroçadas em sacos plásticos, a árvore desenhada com sangue, molas, sucatas jogadas ao chão e o vestido dependurado resignificam-se diante dos olhos dos espectadores para questionar o que é arte contemporânea ou anunciar a morte de um teatro velho e caquético. Felipe Vidal se apropria desse complexo para constituir um espetáculo que flerta com diversos níveis da subjetividade humana.



Híbrida, a montagem dialoga com a performance e põe em cena a urgência da experiência entre atores e plateia. Apesar da marca forte da direção, essa é uma montagem em que os atores se posicionam completamente integrados à proposta. É visível no espetáculo como cada um se apropriou — e provavelmente partilhou — com as ideias de Felipe Vidal. Em cena, eles estão completamente presentes num projeto ousado e instigante. Capaz de fazer o espectador fervilhar o olhar sobre a realidade objetiva e cotidiana. Há, por exemplo, um trecho que discute o pós-radicalismo no tempo de mulheres-bombas. Uma visão completamente ampliada da que se lê, vê e ouve nos noticiários nossos da cada dia.



TENTATIVAS CONTRA A VIDA DELA Teatro 2 do Centro Cultural Banco do Brasil (SCES, Tc. 2, Cj. 22; 3310-7087). De quinta a domingo, às 19h30. Ingressos: R$ 15 e R$ 7,50 (meia). Não recomendado para menores de 16 anos.



"Ao espectador, é colocada a sensação de impotência para dar conta de verdade. Quando se compreende isso, o espetáculo se redimensiona”

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