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sexta-feira, 30 de abril de 2010

A mulher da seca


Por Sérgio Maggio
sergiomg.df@dabr.com.br

A seca chegou antes hora. Há uma semana, pelo menos, as folhas de boldo dizem isso para mim. Pedem para que eu ponha água com mais constância. Quando não faço, elas desmaiam. O tempo está esquisito. Já tem gente que tirou o umidificador da caixa. Outros se queixam de “bafo quente”, típico dos meses de julho e agosto, que entra pela janela do carro. Ou do sol incandescente que desaba sobre a cabeça. E ainda é abril. Será que Brasília vai perder os tempos bem marcados de seca e da chuva?


Essa preocupação não sai da boca de Dona Firmina. A senhora nordestina chegou aqui para procurar um irmão desaparecido na construção. Não o encontrou até hoje, mas por aqui ficou.

— Fui bestando, bestando e o tempo me conformou, ri enquanto entorna uma dose de conhaque.

Dona Firmina não tem dúvidas de que o mundo está acabando no cerrado. A seca bater à porta em abril é o sinal que faltava. Ela sempre se gabou de morar num lugar onde o ritmo da natureza é invertido (chove no verão, faz seca no inverno). Contava para os parentes a proeza e tinha gente que até duvidava da palavra dela. Um dia, Carlito, primo distante, veio para Brasília em julho só para testemunhar o prometido.

— Ele ficou bobo de ver o chão rachado, ri, enquanto pita um cigarro de palha.

O que mais encantou Dona Firmina em Brasília foi exatamente esse ciclo obediente da natureza. Ela nunca se impressionou com os monumentos, as superquadras e o desenho do avião. Não costuma fazer passeios. Nem é de seu conhecimento a construção do Complexo Cultural da República, a última obra de Oscar Niemeyer na Esplanada, tampouco a soberba Ponte JK.

— Sempre acho que tem gente enterrada viva debaixo do cimento, ri, enquanto tem uma crise longa de uma tosse fina.

De cabelos longos de índia, a senhora de calculados 80 e poucos anos tem a mania de colecionar sacos plásticos, que são guardados bem dobradinhos debaixo do colchão. Em cada um deles, põe uma folha, que caiu durante as secas. Sempre começa a catar o material lá pelo mês de julho, que considera o auge da secura. Metódica, tem medo de alterar a data da coleta.

— Nunca pensei em viver para ver essa desgraça, ri, enquanto deixa rolar uma lágrima.

A mulher nunca esquece o dia em que pisou pela primeira vez no cerrado. Tudo era terra remexida para a construção. Ela desceu do ônibus, olhou precisamente a paisagem, fez um silêncio prolongado e deixou o vermelho da terra invadir a visão. Depois, resmungou:

— Deus é mais! Essa terra menstrua, ri, enquanto pega a única foto que tem em mãos.

Na imagem, a moça de olhar forte e marejado, toda de branco, segura uma sacola com as duas mãos.

—- Desse pouquinho que trouxe, fiz a minha vida, de seca em seca, ri, enquanto molha o pé de boldo.

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