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sexta-feira, 19 de março de 2010

Uso e abuso


Por Conceição Freitas

A palavra intervenção já esteve mais presente no noticiário. Depois do primeiro alarme, foi perdendo o rugido e agora é só uma palmatória encostada num canto, ameaçando vagamente para uma surra que pode não acontecer. Exceto o procurador-geral da República, que levantou a lebre, parece que ninguém mais entre os mandachuvas quer intervir em Brasília. Todos os argumentos usados até agora revelam que cada um no seu quadrado está pensando em seus interesses. Dizem cronistas políticos que nem o presidente Lula nem os ministros do STF querem assumir o desgaste de uma intervenção.

Fica a impressão de que Brasília é um estorvo para as autoridades federais. Foi assim desde a saída de Juscelino. Jânio e Jango desprezavam a nova capital. Os governos militares viram na cidade construída nas proximidades do nada a localização geográfica ideal pra seus propósito de isolamento. Se foram responsáveis pela consolidação de Brasília, os militares o fizeram por interesses próprios. Era o quartel-general perfeito — uma ilha da fantasia cercada de sertão por todos os lados.

Os governos democráticos também fizeram bom uso da capital federal. Collor que o diga com piruetas cinematográficas entre a Casa da Dinda e o Palácio do Planalto. Toda a Corte sabe que Brasília, desde que nasceu, foi um território livre, terra de ninguém, lugar de amores escondidos e orgias inconfessáveis. Explica-se por que a cidade dispõe de rede de prostituição de alto luxo sempre pronta para atender aos visitantes ou aos que aqui moram de terça a quinta. Isolamento perfeito para interesses os mais diversos.

O presidente Lula, há de se reconhecer, teve um pouco mais de cuidado com o patrimônio histórico de Brasília. Recuperou o Palácio da Alvorada e agora restaura o Palácio do Planalto. Notícias publicadas há pouco mais de um mês anunciavam que o governo federal quer reinaugurar o palácio no 21 de abril, mas em cerimônia à parte desvinculada das comemorações oficiais dos 50 anos promovidas pelo GDF.

Caso se confirme essa intenção, se repetirá o destino reservado a Brasília desde que o peixe vivo passou a viver fora da água fria. O governo federal até se interessa pelo patrimônio da humanidade, mas não demonstra gosto pela cidade em si mesma. Inexiste, entre os ministérios e os três poderes, o sentimento de que Brasília é um símbolo da Nação, é a representação do país, é uma conquista nacional.

A indiferença que os três poderes federais dedicam à capital que os acolhe é tão nítida quanto a poeira de agosto. Brasília é apenas um grande hotel oficial. Salvo as manifestações protocolares, é raríssimo se ouvir alguma demonstração espontânea de simpatia pela cidade.

Daí que um tratamento mais severo, a intervenção, dá muito trabalho e causa muitos prejuízos a estes e aqueles interesses. Mesmo que se constate que a interferência de uma autoridade federal descomprometida com as forças políticas viciadas poderá sanear a máquina pública para um novo recomeço. Mas quem será que alguém ali gosta de Brasília tanto assim?

5 comentários:

Laurindo Dias disse...

Sensacional, belíssimo texto. Não há outro caminho que não seja a Intervenção Já!

Amancia Lola disse...

Muito bem estruturado esse texto, lindo e verdadeiro. Parabéns

Sonia Santos disse...

Brasília precisa desta intervenção para renascer...

Eleonor Britto disse...

Brasília não é mais a ilha da fantasia que o Brasil acredita ser. Só a Intenveção pode recriar a capital que não é desses merdas é de quem aqui habita e ama, como você Conceição Freitas, como você Sérgio Maggio

A Garoupa Que Sorri disse...

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