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sábado, 2 de janeiro de 2010

Triste boneca de pano


Por Sérgio Maggio
Correio Braziliense - 15/10/2009

Dia das Crianças. Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) repleto de meninos, meninas, pais, tios e outros adultos. Uma garota linda corre para os braços da madrinha, que lhe entrega uma caixa de presente com embalagem caprichada. Ela, com prováveis 8 anos, não se interessa muito em desmanchar o embrulho. A senhora insiste, insiste e então resolve desatar delicadamente o laço de fita. Tira uma boneca de pano de vestes amarela. Os olhos da mocinha não brilham.

— Não gostou? O que minha princesinha quer? Diga, que a Dinda compra!

— Eu quero um programa de televisão…

A madrinha ri sem graça…

— Eu quero um programa de televisão… igual ao da Maisa…

Há um silêncio constrangedor e elas seguem rumo ao teatro para assistir à peça A bruxinha atrapalhada. As poucas pessoas que testemunham a cena se entreolham cúmplices. Sou uma delas. Confesso que me deu um aperto no coração. O que foi ofertado àquela linda menina era um brinquedo lúdico e artesanal. Poderia ser a Emília que um dia a Narizinho ganhou e encheu a sua vida de tantos sonhos fantásticos. Como foi que aquela garota incutiu aquela ideia na cabeça?

O sonho não tem censura nem tamanho. É claro que a menina pode desejar o seu programa infantil. Mas há tanto o que aproveitar ao alcance das mãos! A infância é uma palavra cujo significado não cabe num dicionário. Quantas coisas se pode fazer e criar aos 8 anos? Até inventar que se tem um programa de tevê. Mas parece estranho esperar que esse sonho chegue numa caixa de presente.

Até entendo a impotência do adulto diante de desejo tão inusitado. No entanto, é preciso ter coragem para desfiar a ilusão e mostrar delicadamente que na vida real nem todas as meninas seguirão o caminho da Maisa, que, aliás, outro dia apareceu chorando diante de milhões de espectadores, provavelmente sentindo a dor da fama, de perder parte do tempo precioso de brincar com uma boneca de pano.

2 comentários:

Savoy Saboia disse...

Adorei seu blog, parabéns!
E quanto ao post... eu tenho uma irmã de 7 anos e sei bem de perto o que é uma infância ser roubada e engolida pela grande exploração tecnológica. Uma pena! Enfim... quando crescerem vão perceber o bem precioso que perderam.

SheilaCampos disse...

Confesso que ainda sofro e não me conformo com esse estado de coisas. Então, tornamo-nos reféns - irremediavelmente??? Quem NOS devolverá o prazer da vida longe do sonho de "câmaras e flashes ininterruptos"?