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terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O Brasil do Alzheimer



Sérgio Maggio
sergiomg.df@dabr.com.br
Sabe qual é o mal do Brasil? Alzheimer. Não adianta, o país tem problema agudo de memória. Quando se olha no espelho, não se reconhece todos aqueles que ajudaram a dar identidade cultural à nação, por exemplo. Outro dia, cruzei, no Rio, com a Rua Leopoldo Fróes. Estudioso de teatro, sei quem foi esse homem, apontado como o primeiro ator mítico do Brasil nas primeiras décadas do século 20. Parei num boteco e, enquanto comia um sanduíche de pernil, questionava. Quantas pessoas que passam por aqui sabem quem foi Leopoldo Fróes? Nem quis imaginar o resultado.
De verão em verão, as minisséries da TV Globo sacolejam esse Brasil do Alzheimer cultural ao retratar biografias de homens e mulheres que ajudaram a fazer o Brasil. Até a próxima sexta-feira, Dalva de Oliveira e Herivelto Martins saem do cruel esquecimento. Ano passado, Maysa voltou a ser assunto das rodas por conta da adaptação televisiva. Antes, a maestrina Chiquinha Gonzaga ressuscitou da escuridão. Ano que vem, quem sabe alguém adapta a vida de Isaurinha Garcia, uma das maiores cantoras brasileiras, ou de Clara Nunes, sambista de mão cheia.
E por aí seguimos nessa espécie de roleta russa de quem vai ter a sua memória resgatada pela maior rede de TV do país. Que bom que a tevê, o teatro e o cinema (a arte é a guardiã da memória) fazem o seu papel. Mas por que não estudamos em sala de aula a história da cultura brasileira? Por que não nos debruçamos, desde o ensino fundamental, sobre a evolução da arte deste país nas suas mais diversas vertentes e linguagens? Ensina-se, na disciplina de arte, a evolução da pintura mundial, mas ninguém sabe quem foi Arcângelo Ianelli, Rubem Valentim e Djanira.
Não há cultura sem memória. Brasília é um exemplo dessa fragilidade. A cidade tão nova renega seus criadores. Onde estão os acervos de Ary Pára-raios, Dulcina de Moraes, Renato Russo, Claudio Santoro? Por que a Secretaria de Cultura omite em seu site o nome dos seus teatros e museus? O Teatro Nacional Claudio Santoro aparece apenas como Teatro Nacional. Isso em pleno ano de comemoração dos 90 anos de um dos maiores compositores de música erudita da América Latina. O Museu Nacional Honestino Guimarães também é sonegado. É só Museu Nacional. É tudo impessoal e cruel, como o mal de Alzheimer, que devasta silenciosamente a identidade.



3 comentários:

Salma Dias disse...

O BRasil precisa zelar por seu passado. Hoje, já não sabemos mais que foi Dalva de Oliveria. Amanhã, esqueceremos Raul Cortez, Gianfrancesco Guarnieri, Plínio Marcos e Francisco Alves

Klotz disse...

Li o artigo no jornal hoje de manhã. Maravilha!
Imaginei uma professora da escola pedindo aos alunos que fizessem um levantamemto da identidade das personagens que deram o nome às rua em que morassem. (Exceto brasilienses, é lógico)

SheilaCampos disse...

Maravilhoso texto, Sérgio! Adorei!
Quanto à memória, passado, identidade, artes, ..., nem me pronunciarei... Como professora de História do Teatro, senti esse desinteresse na pele por muitas (e dolorosas) vezes...
Beijos!