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terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Armadilha de cão




Sérgio Maggio
sergiomg.df@dabr.com.br

C.F.S. é um personagem de ficção inspirado nas notícias que infelizmente ocupam as páginas dos jornais e os sites de notícias. É protagonista de uma história que envergonha o país. A seguir, o trecho de seu diário.


Sou casado, pai de duas filhas adolescentes e toda noite espero minha mulher dormir para trocar de personalidade. Deixo de ser C.F.S. para me tornar Cachorro sem Dono. É com esse codinome que entro em salas de bate-papo e passeio madrugada adentro no rastro dos meus alvos: jovens de 14 a 17 anos. Sim, não se assuste, sou pedófilo. Aqui, na superquadra onde moro, ninguém desconfia. Por enquanto, guarde segredo. Tenho 62 anos e cara de gente normal. Sou educado, cumprimento diariamente a todos no elevador, ajudo as senhoras em apuros com as compras e me encanto com os pássaros à beira da minha janela.

Sempre fui assim. Antes, tinha que me arriscar bastante. Quantas vezes, fui à Rodoviária espreitar as presas. Lembro de uma garota que atendia em barraca de bugigangas. Até conseguir o meu tento, fui naquela baiuca umas 18 vezes. Eram dias de pouca colheita até que a internet caiu bem aqui, ao lado da minha cama, onde a esposa dorme profundamente às custas do coquetel de tarja preta.

Hoje, a facilidade é tão absurda que nem tenho mais orgulho das minhas conquistas. Qualquer garota de 12 anos tem Orkut. Meu Deus, como os pais facilitam a vida pra gente como eu. As milhas filhas, E., de 17, e S., de 15, sequer sabem o que é um site de relacionamento. Coloquei senha de acesso em todos os atalhos que considero certeiro para encontrar gente como eu. 09/01/09 Moderação PR
Essa facilidade tecnológica, aliás, tem o seu preço. Há muito amador se metendo com essa onda de pedofilia. Imagina ser preso no Brasil? No meu tempo, o pedófilo só era pego pela CIA, Interpol ou S.W.A.T. Agora, a polícia tupiniquim deu pra deter meus companheiros. Outro dia, li no Correio que os crimes sexuais representam 90% dos casos contra crianças e adolescentes. Humm? Tô achando esse número furado. Pra mim, passa da casa dos 95%. O que tem de pai, tio, sobrinho, primo e sei lá quem mais abusando de meninos e meninas dentro do próprio lar.

São uns doentes. Eu pertenço a outra estirpe de pedófilo. Protejo as minhas filhas. Quanto às dos outros, que façam a sua parte. Tá achando que eu sou uma pessoa sem moral, né? Azar o seu. Minha família me preza. Meus amigos me respeitam. Quando eu escrevi esse diário, eram 3 horas da manhã de ontem. Parecia uma madrugada normal em que teclava animadamente com Guria do Bosque. Trocamos MSN (adoro o messenger, geralmente é um pulo para webcam). Não deu outra. Minutos depois, ela aceitou acionar a câmera. Estava ansioso quando vi explodir a imagem de Guria do Bosque no meu monitor.

Fiquei tonto! Meu Deus, não pode ser! Guria do Bosque é S., minha filha de 15 anos, que estava dormindo na casa de uma coleguinha. Gritei de dor e vi, de uma só vez, todos os rostos das minhas vítimas passarem como um filme diante de mim. No dia seguinte, fiz uma ligação anônima para a polícia tupiniquim, abri todos os meus arquivos no computador e esperei pacientemente eles invadirem o meu apartamento. Pela primeira vez, senti uma abissal vergonha de gente como eu.

2 comentários:

Klotz disse...

Como eu gostaria de ter lido que não existem mais pedófilos.Infelizmente a realidade é outra. Que todos se entreguem por este ou por qualquer outro motivo.

SheilaCampos disse...

Deprimente.
Se ainda se entregassem, como o personagem do texto, seria um tipo de consolo... Mas duvido muito de atitudes assim.
Infelizmente.

Beijos, Sérgio! :)