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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Abismo de emoções

Sérgio Maggio
sergiomg.df@dabr.com.br

De vez em quando, a programação de domingo da tevê aberta reserva ao espectador um momento sublime. Dama do teatro, Marília Pêra apareceu ao fim do Fantástico para dramatizar o último discurso de dona Zilda Arns. As palavras sobre o sentido de servir e doar-se ao outro ainda ecoavam aos ouvidos quando, abruptamente, eis que surge Pedro Bial e “sua nave louca do BBB”. Sem direito a uma fração de tempo sequer, saímos do sentimento de consternação da tragédia haitiana para testemunhar a gincana de vaidades e miudezas humanas, patrocinada pelo reality show mais poderoso do país.

A falta de sutileza é mesmo a marca de quem organiza a grade das redes nacionais. A banalização das emoções do telespectador é como uma bola de futebol nos pés de um astuto jogador. Como se fôssemos mero objeto, somos programados para chorar durante o Fantástico e rir do ridículo humano do Big Brother Brasil. E assim emendaríamos uma semana na outra, por vezes, impotentes e sem um senso crítico capaz de desligar o controle remoto e exigir um pouco mais de respeito. Não se quer que se coloque uma tarja de luto nos programas que sucedem as narrativas das tragédias humanas. Mas, ao menos, que se crie um ritual de passagem entre o clima de consternação e o de euforia. Seria mais gentil que Pedro Bial abrisse o programa ao vivo informando aos felizes confinados que o Haiti sucumbiu a pó. É uma forma de proteger o espectador desse abismo de emoções.

Quem estava diante da tevê no começo de tarde do primeiro sábado de janeiro viu outro desrespeito dessa natureza. O Jornal Hoje mal acabava de encerrar a edição dedicada quase exclusivamente às mortes de Angra, e Angélica aparecia, com Estrelas, direto daquele balneário, ainda intocado pelo desmoronamento de terras. Em seu “castelo de Caras” televisivo, a apresentadora mostrava famosos a se esbaldar em banquetes na praia e no mar. Não havia sequer uma menção ao fato de o programa ter sido gravado anteriormente. Até hoje, a festa segue por lá como se fosse um escárnio à memória de parentes e vítimas. Na última edição, a moça sambava com a Angra que não existe mais ao fundo, enquanto a tragédia, aquela que rendeu horas de cobertura jornalística e audiência, já virou material de arquivo para a triste retrospectiva deste esquisito começo de 2010.

3 comentários:

Maya Sá disse...

Brilhante análise querido. Parabéns

Paulo Sales disse...

Grande Serginho,
o patético tomou conta de vez da tevê, com suas celebridades de vento e seu culto à mediocridade. Desisti há muito tempo, a não ser quando passam os jogos do Mengão.
Vou acompanhar seu blog. Parabéns pela iniciativa. É um ótimo veículo para a gente se expressar.
abs.

SIGRID SPOLZINO disse...

Caro Sérgio,
Será que o "conscientizar-se" anda em desuso ou terá caído em um abismo mesmo????
Baci