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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A vinda do sábio Jeremias

-->por Sergio Maggio

Seu Jeremias tem cabeça de chuva. Isso não é uma novidade lá em Crato, no Ceará. Quando ele pisou pela primeira vez no Distrito Federal, no último domingo, a tempestade parecia querer lavar os males dos homens. O senhor, sábio por natureza, retrucou:

-- Quando a natureza chora, meu filho, pode ser por felicidade ou desgosto. Esta é a primeira vez que seu Jeremias sai de Crato.

Há 50 anos, a viagem para Brasília era uma promessa do irmão Justino, que veio para a construção da capital dos sonhos. A família candanga fez festa na casa grande, construída com zelo no Cruzeiro Velho. A mesa comprida de comida e gente abrigou toda a parentada, que se multiplicou feliz nesse tempo em que os dois irmãos ficaram trocando saudades por cartas e telefonemas.

— Jeremias, essa meninada que corre solta pela casa é tudo neto, orgulha-se Justino. O visitante se alegrava com tanta abundância vinda do suor e do trabalho do irmão, um rapaz humilde que saiu de Crato para vencer na terra de Juscelino.

— Olha, meu irmão, nós alugamos um ônibus para ir juntos conhecer a Esplanada e os monumentos. Não sei se você lembra, eu trabalhei em dois deles: no Palácio do Planalto e no Congresso Nacional. São aqueles prédios diferentes. Não tem lá pelas bandas do Ceará. O problema é essa chuva que não para…

— A chuva, meu irmão, nunca será um problema, replicou seu Jeremias.

Após o farto almoço, o ônibus se encheu e rumou para a Esplanada. Saiu do Cruzeiro Velho com o povo cantando “Tem alvorada, tem passarada, alvorecer… Sinfonia de pardais/ Anunciando o anoitecer/ E o morro inteiro no fim do dia/ Reza uma prece, Ave Maria…” Seu Jeremias puxava o coro de Ave Maria do Morro, canção imortalizada por Dalva de Oliveira, enquanto o irmão Justino enchia os olhos de lágrimas. Os dois seguravam fortemente as mãos.

— Chora, meu irmão, o choro é a chuva da alma, dizia seu Jeremias.

O ônibus passou pela Catedral, toda coberta de tapume, e seguiu para a Praça dos Três Poderes. Justino explicava tudo sobre o cartão-postal que se exibia pela janela. Parou sobre a mais intensa tempestade daquele dia. Seu Jeremias pediu para que todos ficassem e desceu sozinho, de cabeça ao vento.

— Meu tio é doido, comentou um dos netos.

Ele foi ao centro da Praça dos Três Poderes , onde ficam milhares de pombos em dias de estiagem, ajoelhou-se e chorou copiosamente. Voltou encharcado, sentou-se ao lado do irmão e, com voz em tom confessional, revelou:

— Eu vi sangue escorrendo em filetes do concreto dos monumentos de Brasília. Tudo sangra como um corpo em desarranjo. A chuva que cai é bálsamo para aliviar a cidade em hemorragia. Vamos rezar, meu irmão, vamos rezar.

Seu Jeremias foi embora ontem. Todo mundo foi com ele para a Rodoferroviária. Ele volta para Crato, onde é tratado como um rei. Lá, é um profeta da chuva. Homem que tem o dom de adivinhar quando as águas desabam do céu. Ao se despedir, disse ao irmão.

— Vou a viagem toda orando para que só cesse a chuva quando o sangue da cidade estancar.

Quando ele partiu, de novo, o dia virou noite de tantas nuvens carregadas. Axé! --> --> -->

2 comentários:

Cecilia Ciano disse...

Uau, essa história d´aum curta-metragem. AMEI

Anamaria disse...

Putaquepariu. O cara ajoelhado na chuva para lavar o sangue que escorre pelas paredes de Brasília me arrepiou até a alma!
Axé!