Languages

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Um amigo chamado Natal


Por Sérgio Maggio
sergiomg.df@dabr.com.br

Quando esta crônica chegar aos olhos do leitor, Zuzu estará dormindo em sono profundo. É que a noite de Natal foi a melhor em 36 anos de vida. Nunca ela tinha comemorado o nascimento do menino Jesus com ceia farta e família à mesa. Desde pequena, o dia 25 de dezembro era como outro qualquer, sem presentes, afagos e laços de amizade. Nessa madrugada, no entanto, a história teve outra escrita. Havia, no forno, chester assado que o amigo jornalista ofereceu. No fogo, arroz de polvo, que a companheira de batalha preparou. Na cozinha, saladas, frios, frutas secas e da estação. Para beber, vinho, cerveja, guaraná e suco de amora preta patrocinados por amigo de alma. Em torno da ceia, uma família que a vida tratou de formatar.

Zuzu é o nome de guerra de Zuleika Castro de Barros Magalhães.

— Nome de coluna social… Tá, lindo!, gabava-se.

De dia, Zuzu costura para barraca da Feira do Guará. De noite, ela se prostitui no Setor Hoteleiro Sul. Trabalha feito uma guerreira para manter as contas em ordem e acalentar o sonho de gerar uma criança. Todo mês, guarda até R$ 500 para o futuro do herdeiro que vem por aí.

— Nem que seja com Wiltinho, conformava-se Zuzu.

Wiltinho é o amigo gay de Zuzu e um dos convidados daquela primeira noite de Natal. Foi ele quem patrocinou todas as bebidas. Sujeito culto, é auxiliar de enfermagem em hospital público e sempre deu um jeito de atender Zuzu e todas as amigas de prostituição no consultório ginecológico. Graças a ele, Claudinha conseguiu a tempo diagnosticar um câncer de útero.

— A gente não pode perder uma irmã como Claudinha. Deus é senhor, agradecia Zuzu.

Naquela noite, Claudinha foi a responsável por preparar o arroz de polvo, receita que aprendeu quando morava na Ilha de Itaparica (BA). Ela fugiu do “paraíso” porque apanhava dia sim, dia sim, da mãe, alcoólatra inveterada. Pegou uma carona de caminhão e acabou na prostituição em Taguatinga. Um dia, conheceu Zuzu e viraram amigas de infância. Foi Zuzu quem apresentou Claudinha ao jornalista João, que se apaixonou pela moça e pôs até anel de noivado.

— Não conheço homem mais justo do que João, repetia Zuzu.

Naquela noite, João organizou a ceia. Ele temperou de véspera o chester e fez uma farofa com os miúdos. Antes de ele chegar, Zuzu, Wiltinho e Claudinha prepararam a casa para receber o amigo. Plantas na sala, enfeites coloridos na cristaleira e toalha de mesa com sinos de Natal. Na árvore, tinha um presente para todos. Zuzu costurou roupa nova para os amigos. Cada um ficou mais lindo que o outro. Wiltinho chamou o paquera, o vigilante Romilson, que, por sua vez, levou o irmão Ronilson. De noite, bem na hora de servir a ceia, a harmonia e o amor, sentimentos tão próprios à ocasião, reinavam. Zuzu e Ronilson não tiravam o olho um do outro. Dormiram juntos.

— Se for menino, e há de ser, vai se chamar Natal. Ele terá o dom de ser o melhor dos amigos que alguém poderá ter, murmurou Zuzu.

  • Esta crônica é dedicada à memória de Natal Eustáquio Pereira, o melhor amigo que eu pude ter na vida.
  • 2 comentários:

    Santos Dias disse...

    Que lindo Sérgio, adorei mesmo, Natal foi um ser de luz que esteve aqui na Terra

    SheilaCampos disse...

    Lindo! Fiquei emocionada!
    Foi difícil explicar o porque do choro em pleno horário de trabalho.
    Mas acho que esse momento descrito de forma tão sensível foi importante para "lavar a alma" e lembrar o que é essencial.
    Muitos beijos!

    (E muitos Natais igualmente felizes para Zuzu!)