Languages

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O caçula de dona Valdete

Por Sergio Maggio


Dona Valdete, mineira de Governador Valadares, foi criada dentro dos conformes de seu tempo. Namorou homem que a família consagrou, noivou e casou como mandava o figurino. De véu e grinalda para indicar a pureza de mulher. Teve três filhos. Uma menina e dois varões. Foi feliz até a criançada engrossar a voz e levantar a crista. A garota não obedeceu às expectativas de mãe.

— Aquela caiu no desfrute cedo. Teve mais de dois namorados até casar. Agora, separou-se com duas filhas pequenas e já se meteu em outro casamento, com um desquitado. Não sei o que fiz a Deus, mas só tive sorte com meu caçula.

O mais velho nunca foi chegado ao estudo e cedo se meteu com uma rapaziada que via o mundo pelo avesso. Saiu por aí, errante, fazendo artesanato tenebroso e vendendo pelo litoral brasileiro. Dona Valdete penou noites adentro imaginando por onde o filho caminhava. Depois, largou de mão. De verão em verão, ele ligava de um orelhão. Uma vez, informou que a mãe havia se tornado avó. Em outra, ouviu a notícia de que o pai tinha morrido de enfarte.

— Aquele nunca se apegou a nada. Família, dinheiro, estudos. Mas no dia que soube que o pai tinha morrido fez um silêncio longo do outro lado da linha. Depois disso, não ligou mais. O meu neto já deve ter uns 10 anos. Não sei o que fiz a Deus, mas só tive sorte com meu caçula.

O caçula de Dona Valdete formou-se em engenharia civil e especializou-se em manutenção de hotéis, shoppings e grandes complexos prediais. Estava em Brasília desde o início de 2009. Venho de coração partido por deixar a mãe sozinha, mas cheio de vontade para vencer o desafio. Aqui, estava feliz. A cidade o acolheu com vontade. Rapidamente, fez amigos e encontrou até um amor de verdade. Neste Natal, ele trouxe Dona Valdete para conhecer Brasília. De flores nas mãos, foi pegá-la no Aeroporto. Em casa, preparou mesa de café da manhã, daquelas de novela. Na árvore, havia uma caixa com gargantilha de ouro cravejada de finos diamantes.

— Não sei o que fiz a Deus, mas só tive sorte com meu caçula.

De tarde, eles saíram para conhecer Brasília. O filho apresentou a mãe um amigo que fez aqui. Dona Valdete estranhou o carinho que um tinha pelo outro. Lembrou que achava estranho o caçula tão lindo nunca falar de namoradas. Mas tirou isso da cabeça assim que viu a paisagem magistral da cidade. Pararam no Pontão do Lago Sul para tomar uma cerveja. Já descontraídos, a mãe percebeu que as mãos dos rapazes se tocavam em suaves movimentos por debaixo da mesa.

— Não sei como consegui me levantar. Fui para o pier de madeira e olhava aquele lago, que tem a imensidão de um mar. De longe, via os dois rindo e felizes numa conversa, que me lembrou o tempo de namoro na praça,

Dona Valdete voltou à mesa e a tarde seguiu entre gargalhadas, cervejas, tira-gostos e olhares fraternos. Antes de anoitecer, ela virou-se para o namorado do filho e, cheia de orgulho, revelou a sua máxima:

— Não sei o que fiz a Deus, mas só tive sorte com meu caçula. --> --> -->

Um comentário:

Val Matias disse...

Muito emocionante, parabéns Sérgio