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terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A Arruda de Terezinha das Folhas

-->por Sérgio Maggio

Baiana de Salvador, nascida na Rua Pero Vaz, Bairro da Liberdade (o maior de população negra da América Latina), Terezinha das Folhas está de cabeça quente neste fim de ano. É que ela apostou na vinda de um lote grande de arruda. A encomenda chegou semana passada pela Rodoferroviária e até agora não foi vendido um galho sequer. De uma hora para outra, ninguém mais quer saber de arruda. E olha que 2010 promete ser um ano de florescimento, portas escancaradas e brilho renovado, qualidades dessa planta sagrada e cultuada pelo candomblé. A folha é indicada para o banho de descarrego, livra do mau-olhado, do olho gordo, desata nós.

— Menino, tá saindo de tudo na minha banca. Guiné, alecrim e boldo. Sabugueiro, erva-doce e malvaís. Jurubeba, espada de Ogum e parreira. Comigo-ninguém-pode, abre caminho e pariparoba. Manacá, quitoco e manjericão. Mas arruda encalhou. Já fiz até despacho, mas nem os orixás aceitaram a oferenda. Nunca vi disso. O tempo fechou na minha cabeça, lamentava a senhora, que chegou ao DF em 2001.

O prejuízo de Terezinha das Folhas é incalculável. Além do dinheiro empatado para trazer a encomenda, os galhos de arruda amontoados, um em cima do outro, viraram um fardo. Todo dia, ela tem que fazer sete viagens de carrinho de mão só para transportar as folhas de arruda, que juntas pesam quase uma tonelada. O pior é que o esforço tem sido em vão. Quando arruma a barraca de folhas, aquela pilha de galhos de arruda, que murcha a olhos vistos, provoca um aspecto disforme e feio ao negócio.

— Quem passa de fora nem vê a minha cabeça. Parece uma selva fechada. Axé, meu pai, clamava Terezinha das Folhas, jogando cachaça no chão para purificar o terreiro.

Para piorar, as folhas de arruda deram também para atrair todo tipo de inseto. O que passou a afugentar ainda mais a clientela. Quem encosta na banca de Terezinha das Folhas começa a se coçar de tanta picada que recebe. É um bate-bate de mãos pelos corpos para matar os mosquitos sanguessugas. Ninguém consegue parar um minuto naquelas imediações .

— Nossa meu filho, tá parecendo praga. A arruda feia desse jeito e enrugada e esses bichos atacando o povo. Meu Deus, caí em desgraça, chora Terezinha.

Tudo parecia perdido neste fim de ano para Terezinha das Folhas, até que um dia ela recebeu a visita de um ancião negro. O senhor chegou calmamente. Fitou cada folha, tocou e esmigalhou algumas. Nessa hora, todos os insetos se afugentaram. Um cheiro de incenso subiu forte. Terezinha se ajoelhou em sinal de reverência. Teve uma visão. O homem parecia o orixá Ossain, o guardião das folhas sagradas.

— Filha, pega esse maço de arruda e queima em lugar aberto. A energia dessas folhas está morta. Só depois que vier esse fogo da purificação, tudo vai voltar a florescer por aqui. Vai, segue e faz logo essa limpeza.

Terezinha obedeceu e naquela mesma noite fez das folhas de arruda uma fogueira que subiu com labaredas imensas. Dia seguinte, voltou à barraca e não teve folha para quem quis.

Um comentário:

Márcia W. disse...

kkkkkkkkk. Hilário adorei