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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Será que somos medievais?

O século 21 é uma farsa. Fomos enganados quando disseram que o mundo seria outro quando virasse o ano 2000 e entrasse na desejada Era de Aquário. Se existisse um Procon de engodos universais, poderíamos fazer filas para processar a “evolução da humanidade” que ainda não veio. Não falo só de guerras, fome, pandemias, destruição do meio ambiente, corrupção, traições e jogos sujos para acumular riquezas. Refiro-me à violência nossa de cada dia, aquela que acontece amiúde, nos cantos de casa, nas ruas, nas frestas da vida.

Na desvalorização do outro, por quem se julga superior. Na notícia, por exemplo, publicada pelo Correio, em reportagem de Naira Trindade, de que os jovens atores Eduardo Dutra e Jonathan Andrade foram expulsos do Bar Leblon, na Asa Sul, porque trocavam simples carinho de amigos. Um beijo na face foi o suficiente para envergonhar e ofender. Os rapazes foram convidados a se retirar. O dono anunciou: “Prefiro perder uma mesa do que 10”. É a lei do mercado. Vale mais o dinheiro no caixa do que o respeito à diferença.

De Salvador, berço do país, Isabel Ribeiro manda um e-mail indignada. “Fui discriminada.” Artista gráfica, ela estava num apart-hotel de bairro chique de Ondina, em reunião de trabalho, quando uma mulher branca começou a falar aos borbotões do seu cabelo crespo e trançado. Dizia que sentia nojo de ver aquilo. Fez questão de anunciar a todos o quanto se incomodava em estar no mesmo lugar com alguém como Isabel. A dor do preconceito não pode ser descrita nessas palavras. Infelizmente, só quem sente na carne sabe o que significa ser desvalorizado pela cor da pele, pela sexualidade, pelo credo, pela classe social, por ter uma aparência ou um comportamento assim ou assado.

Nesses dois vergonhosos episódios, as vítimas deram queixa à polícia. Os acusados de racismo e preconceito serão intimados a depor. Podem até ser punidos, mas neste exato momento outro brasileiro é apartado do convívio por alguém que não suporta a diversidade e a complexidade humana. A dor de Isabel, Jonathan e Eduardo não é diferente da de tantos outros negros e homossexuais que foram riscados do mapa na bárbara história da humanidade. Continuamos medievais em 2009? Há, ao menos, uma certeza: para assegurar os direitos humanos, é preciso mesmo ir à delegacia mais próxima.

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