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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Fé no teatro


Nossos ossos do ofício


Por Elisa Lucinda

Com chuvas e frio, a primavera se derrama e marca sua temporada sobre São Paulo. Estou aqui, meus leitores amados, na boca de uma nova estreia. Explico: Estamos estreando, nós da Cia da Outra (eu, Geovana Pires e ótimas companhias), uma peça nova, amanhã aqui. Vocês não precisam saber que amanhã é esse, basta que saibam desta véspera que antecede às estreias e seu acontecimento estonteante no coração dos atores. É bom que saibam dos riscos emocionais desse ofício. A Natureza do olhar, novo nome que alcançamos para a peça Mestre Caeiro, o descobridor da natureza, é mesmo não só no nome uma nova peça. Agora estamos em processo mais profundo porque navegamos sob a batuta afiada do mestre Amir Haddad, o homem do teatro sem marcas prédefinidas.
Para quem não sabe, marcas são indicações prévias das posições espaciais dos atores no palco: Ande três passos e dê a sua fala. O pensamento do mestre Amir fala de uma liberdade inteligente do ator, onde ele se moverá no palco como um jogador. Cada um na sua posição espacial que nasce da narrativa; se a narrativa precisa de mim no canto direito do palco, eu vou pra lá. Tudo em prol do jogo teatral, cuja missão é contar a história. Dentro desse pensamento, é que preparamos o espetáculo que ofereceremos a plateia. É tudo pra ela. É tudo por ela. É tudo a ela oferecido e ofertado, nossa arte, nosso pão. Só que a plateia só chega amanhã.
Pra vocês, não importa o número e nem o mês desse amanhã agora. O que importa é que partilho com vocês, neste momento, o medo que sobe pela barra da saia da gente nessas vésperas. Só quando a plateia chega para receber a oferenda, e com ela interagir e com ela chorar e rir, é que vamos saber se deu certo. O teatro não é nada se a plateia não o sentir. É uma ficção, que no nosso caso se dará dentro do teatro com uma quantidade específica de testemunhas, ou seja,, marcamos um encontro com trezentas pessoas ao mesmo tempo e não podemos faltar. O Amanhã, atende pelo pomposo nome de futuro muito próximo. Os nossos ensaios nos preparam para jogar um jogo lúdico e dramático com esse público, mas ele ainda não existe, porque ele só será público em estado de conjunto, em estado de pessoas reunidas para o mesmo fim, só a partir do dia de amanhã.
Nós, o elenco, sabemos o que sabemos hoje, mas seremos outros amanhã. Então, a estréia é geral, um futebol ,com atores, papéis, história e plateia. E o jogo começará. Dá frio na barriga, dá medo de errar. E de errar, erro novo. Erro que nem sabemos qual será, se acontecerá e como acontecerá. É tudo ao vivo. Por isso que parece tanto com a vida. E nesse ponto melhor do que a vida, porque a gente pode sempre consertar. Na vida pode-se melhorar e aprender e não repetir o erro, mas no palco o morto que ontem, morto era, a gente hoje pode decidir ressuscitar. A piada que ontem não funcionou, a gente pode hoje tirar ou melhorar, acertar no tempo cômico, substituir, cortar.
Escrevo isto para que saibam da nossa responsabilidade. Para que quando vocês ouvirem alguém comentar, "Aquele ali tem vida de artista", nos defendam. Não deixem que digam, que pensem e que falem, embora já mereçam o perdão porque não sabem o que falam. Tal frase vem, em geral, carregada de uma sinonímia de vadiagem, mas o buraco é mais embaixo. Há um trabalho árduo por trás dos panos. Como nesse caso, adoramos o que fazemos, é um árduo saboroso. O teatro é guloso, exige tudo e, embora seja o lugar das máscaras, sua posição melhor é o de estar por trás delas e à sua frente ao mesmo tempo. Mas, para isso, nos quer inteiros, exige nossas vidas com tudo o que há dentro delas e, em especial nossa experiência nelas. Tudo serve à grande boca do espetáculo, à boca da cena.
A partir depois de amanhã, esperaremos, por meses, que o público, nosso freguês, compre ingressos e receba e goste faça um boca-a-boca do nosso preparado.
Somos trabalhadores sem horário fixo aparente pois, exatamente na hora que a maioria das pessoas começa a se divertir e, a se entreter, é nessa hora que pegamos no serviço. Um compromisso de fazer rir e, chorar, pensar e que, aos olhos menos observadores nem parece trabalho. Talvez porque serviço e prazer sejam ainda palavras dissociadas entre si em conceito.
Com filho doente, casamento em crise, febre, não importa, o artista sabe: ao teatro só se falta quando morre. Rala-se muito, acreditem –me os que não são atores e conosco não convivem. E é tão apaixonante o íntimo enredo deste milenar oficio que, falando sério, mesmo entregando esses segredos, ainda assim, não acaba o mistério.

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