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terça-feira, 22 de setembro de 2009

Rock Brasília

ARTIGO
Identidade brasiliense

Carlos Marcelo

Surpresa: riso e choro se misturam no momento mais aguardado da segunda noite do Porão do Rock. No palco, radiante, o vocalista André, do Móveis Coloniais de Acaju, pula e abre imenso sorriso enquanto canta Tempo perdido. Na primeira fila, espremidas na grade, cinco garotas estão aos prantos — tinham começado a chorar na exibição do vídeo que antecedeu a entrada dos músicos da Legião e funcionou como senha para a catarse coletiva. E aumentaram o volume do choro ao escutar a introdução dedilhada por Dado Villa-Lobos.

As cinco meninas certamente não tinham idade para ter assistido, em 1988, ao último show da Legião em Brasília. Então, para elas e tantos outros jovens que passaram pela Esplanada, aí vai uma certeza: o que se ouviu na noite de domingo foi Legião Urbana, não uma banda cover. Mas o microfone posicionado no meio do palco, com duas rosas brancas no pedestal e desligado, delimitava os limites de Dado e Bonfá: por meio de um símbolo forte, avisavam que a banda não estava completa – e caberia ao público, mais do que aos convidados, preencher mentalmente o vazio do rosto e da voz de Renato Russo. “A Legião Urbana são vocês”, lembrou Bonfá, repetindo as palavras do líder.

Antes e depois da entrada dos músicos da Legião, porém, Brasília foi passada a limpo em suas diversas encarnações roqueiras — metal contra as nuvens que ameaçavam chuva, punk contra os detritos produzidos ali mesmo, no centro do poder; sair da garagem para azarar na W3, misturar Luiz Gonzaga e hardcore; lembrar da piscina de ondas, do coreto do Gilberto Salomão, dos muitos porteiros e das pessoas normais. Independente da sonoridade ou década, todos com a mesma identidade.

Os organizadores acertaram ao tratar o passado musical não como peça de museu, mas como parte contínua de uma mesma realidade roqueira — e assim deve ser vista a aparição, por exemplo, do seminal Escola de Escândalo e seus clássicos (Luzes, Complexos) tortos e desengonçados, pintados em estilo naif (se Brasília já foi Seattle, eles são os nossos Melvins). E da (ainda) feroz Plebe Rude, que, aditivada por músicos das gerações 80, 90 e 00, comprovou ser a banda certa para um país que deu errado — mas isso é outra história, dos tempos de confronto. Agora o que reina é a necessidade de acolhimento.

De volta à catarse. Vêm Pais e filhos, Eu sei, Ainda é cedo (o momento monumental da noite, com os três Paralamas e Dado em estado de graça), Geração Coca-Cola… as cinco meninas não param de chorar. Atrás delas, a plateia incorpora o espírito de arquibancada de estádio (Mané Garrincha, enfim, exorcizado?) e comemora: “Ô, A Legião voltou, ô, a Legião voltou, ô…”. Estão enganados. A Legião não voltou porque nunca tinha ido embora. As canções de Renato Russo, Dado e Bonfá — e as de Fê, Flávio, Pretorius, Dinho, Loro, André X, Philippe, Jander, Gutje, Gerusa, Fejão, Bi, Herbert, para ficar apenas em nomes da geração 80 — estão entranhadas entre blocos, quadras, eixos, asas, monumentos, palácios e ruínas de concreto. Perplexos, ainda perguntamos que país é esse; surpresos, ainda nos questionamos que cidade é essa.

Música urbana, inconsciente coletivo: eis o patrimônio imaterial brasiliense.

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