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segunda-feira, 11 de maio de 2009

Sonhos do Yuyachkani

Fotos de Tainá Azeredo//Texto de Sérgio Maggio

Quando El Último Ensayo do Grupo Cultural Yuyachkani (Peru) começa, um turbilhão de imagens e de ações ísicas passam diante dos olhos da plateia como um "êxtase" de memória. São estilhaços de guerras que dialogam com movimentos de um grupo de músicos em processo de criação. Ali, ouve­-se uma voz feminina pronunciar o som "chuá". O espectador ainda não sabe, mas, da próxima vez em que a atriz reproduzir essa infexão, os fragmentos narrativos se encaixarão com precisão e potência: "Chuá" lança a personagem (uma diva peruana internacional que é capaz de cantar ópera em francês sem entender absolutamente a língua estrangeira) e, em sincronia, projeta­-se na tela o cogumelo de fumaça radioativa, que ceifou Hiroshima e Nagasaki. Em seguida, diante da plateia, surge a frase "a história é um pesadelo do qual não consigo acordar".

Num espetáculo permeado pela urgência de constituir a memória histórica como estratégia para erguer a identidade de um povo, o Grupo Cultural Yuyachkani expõe a complexidade em fragmentos fornecidos cena a cena. O que transforma o espectador em artífice da montagem, convidado a pensar o seu "aqui­agora" a partir desse tempo passado de lutas na América Latina em um dos recursos brechtianos mais admiráveis.
El Último Ensayo tem a universalidade que dialoga com o mundo mergulhado no furor neocapitalista, onde é preciso esvaziar a "alma" para se tornar uma mercadoria que atravessa livremente as fronteiras. Apesar de ter esteticamente o dom de alcançar todos os registros de "vozes" de uma ópera, a diva peruana internacional está oca. Não viu o povo ser dizimado de tempos em tempos. Embebedou-­se em si.
As alegorias do Yuyachkani são poéticas, formadas ao escoar a na­rrativa. Com o espaço cênico nu, os atores constroem habilmente o mosaico de imagens que se canalizam docorpo para a projeção de cenas e do texto de Peter Elmore, num diálogo integrador e orgânico orquestrado pelo maestro Miguel Rubio Zapata. Metáfora potente, o tempo, matriz da memória, perece a mercadoria em que se tornou a diva peruana internacional. É um produto, e como tal tem data de vencimento.
Ao se definhar diante dos olhos do espectador, o que parecia valer ouro agora vira espúrio. Com muitas chaves para abrir portas e caminhos, El Último Ensayo nos faz sentir, por exemplo, que não é vã a luta de tantos criadores em fazer da arte um campo de expressão sensível para combater estruturas incapazes de lidar com a diferença, seja política, econômica, social e estética. Em dias de luto, nos remete a Augusto Boal:"Ser um cidadão não é viver em sociedade, é transformá­-la."

Um comentário:

Eulália Britto disse...

Lindo, queria ter visto, há muito ouço falar do trabalho vital desse mítico grupo cultural peruano, que defende a cultura com a alma