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terça-feira, 12 de maio de 2009

Brecht do EL Galpón








Fotos de Tainá Azeredo e texto de Sérgio Maggio


Misturada à mensagem de desumanização do indivíduo no front de batalha, há ainda uma sensação de extremo gozo em presenciar o espetáculo Un hombre és un hombre, do El Galpón. Com forte aprofundamento na fisicalidade dos atores e no humor irônico de Brecht, o grupo uruguaio estabelece, à primeira vista, poderosa comunicação, que derruba barreiras estrategicamente construída de que a estética brechtiana, por exemplo, é defasada ao gosto do público do aqui-e-agora. Ao contrário, o El Galpón, a partir de distanciamento possível, potencializa a comunhão entre palco e plateia, caminhando sobre abismo extremamente sedutor.

Aí reside a principal discussão desse espetáculo dirigido por Maria Azambuya. Debate, aliás, muito próximo à realidade brasileira, já que temos recentes montagens brecthianas que seguem a mesma chave de humor, resultando em casas lotadas, fácil aceitação da crítica e risos largos (é o caso de A Alma Boa de Set-Suan, estrelada por atriz comediante com forte imagem atrelada à tevê). Até que ponto a agudização formal da comédia é um facilitador para transmitir os recursos ideoestéticos na obra de Brecht?


Por exemplo: Em Um hombre es um hombre, o grau de alienação do personagem Galy Gay, elemento sutil de distanciamento, desaparece diante da potência cômica e formal. Um recurso que aprofundaria a estética dialética e consequentemente o conteúdo político da obra seguramente se esvai. O que isso sequela o aspecto politizante do espectador?

Há hoje no senso comum uma rejeição visível ao conteúdo político da obra de Brecht. Cabe ao teatro contemporâneo encontrar um lugar para discutir essa historicidade política da arte sem montar a chamada “obra de museu”. Com 60 anos de estrada, o grupo El Galpón parece disposto a pôr a cara a tapa. Sem dúvida, o maior mérito dessa montagem. Faz um Brecht com pegada jovem e dinâmica. Cabe saber o que acontece de transformador na cabeça do espectador. Eu, ao menos, saí com recente imagem terrível dos soldados norte-americanos na cabeça. Aquela em que o exército de Bush, em atitude de escárnio, humilha os presos iraquianos, em fotos espalhadas pelo mundo via internet. E você?

Um comentário:

Alana Flores disse...

Lindo, o espetáculo descrito aqui. Adorei mesmo. Bjs