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terça-feira, 21 de abril de 2009

Elas já estão na cidade


De braços abertos -->


Sérgio Maggio



Segunda-feira, 20 de abril de 2009, véspera dos 49 anos da inauguração da nova capital federal, desembarcaram na Rodoferroviária quatro mulheres. Chegaram em ônibus diferentes entre as 3h e as 5h da madrugada fria. Cada uma conduzida por uma história própria:


Deusa (procedência Salvador, Bahia, 53 anos) — Veio finalmente para Brasília tentar resolver no INSS o problema que lhe tirou temporariamente o benefício.


— Estou encostada como maluca. Fui renovar o cadastro e descobriram 12 carteiras emitidas em meu nome. Não sou corrupta. Ô meu amigo, aquilo me deu uma revolta, que quebrei tudo. Olhe, você me deixe em paz porque o meu negócio em Brasília não vai ser bom.


Selma (procedência Souza, Paraíba, 66 anos) — Depois de 49 anos de separação, chega para encontrar o irmão Antônio, de quem nunca teve notícias. Ele migrou para a capital no ano da inauguração. Era carpinteiro de mão cheia.

— A gente nunca soube nada dele. Uma linha de notícia, um telefonema, nada. Minha mãe morreu na esperança de encontrá-lo. Agora, juntei dinheiro e vim investigar esse sumiço. Vai ver ele ficou rico e esqueceu a família. Ou morreu soterrado na construção. O povo fala que isso acontecia muito.


Dulce (procedência Formosa, Goiás, 31 anos) — Cedeu aos apelos de duas amigas e veio se prostituir na cidade. À família, disse que viajou a fim de se preparar para concurso público.
— Vim fazer vida aqui em Brasília. Tem umas colegas que se deram bem no Setor Hoteleiro Sul. Você sabe como faço pra chegar lá? Estava sem expectativas de trabalho. Então, resolvi enfrentar esse desafio. Tô com medo e espero juntar dinheiro para fazer carreira de Big Brother.


Zulmira (procedência Manaus, Amazonas, 75 anos) — Professora aposentada que lecionou Educação Moral e Cívica (EMC) e Organização Social e Política do Brasil (OSPB) na época da ditadura militar. Com o fim das disciplinas, foi para o Serviço de Orientação ao Estudante (SOE).
— Realizo um sonho. Não poderia deixar de pisar nesta terra de desbravadores antes de morrer. Quero ficar diante de cada monumento, entoar o Hino Nacional na Esplanada, ver o presidente. Sou brasileira!

Um comentário:

Susuca disse...

Uau, quero conhecer todas elas. Fantásticas