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sábado, 18 de abril de 2009

Cafetinas no Ideias, do JB

Foto: CLaudia Ferrari
Casas da Tolerância


Jornalista faz livro-reportagem que flerta coma pesquisa etnográfica e desmitificaa figurada cafetina


Alexandre Werneck

Prostíbulo, bordel, lupanar, randevu. O estigma e a agressividade marcam os muitos nomes dados ao espaço em que se dão os negócios das prostitutas. Todas essas expressões são carregados de rótulo, todas são promovidas a xingamentos com que se desqualificam outros lugares. Talvez por isso, vendo de perto, nenhum nome soe tão adequado quanto o apelido, consagrado antanho, mas ainda hoje, de maneira um tanto moralista, "casa de tolerância".

– É "de tolerância" porque a sociedade as tolera. Como a prostituição é uma atividade normal, registrada em qualquer sociedade, é importante ter essas casas muito bem demarcadas como outsiders – diz o jornalista Sérgio Maggio, responsável por um dos projetos de pesquisa mais corajosos e interessantes publicados recentemente no Brasil.

Conversas de cafetinas nasceu como monografia de conclusão no curso de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Maggio queria fazer um livro-reportagem sobre as prostitutas, mas logo viu que havia um personagem mais interessante e menos conhecido, negligenciado: a administradora daqueles espaços.
– É um personagem muito romanceado, folclorizado, sobretudo pela literatura de Jorge Amado e suas versões para a TV – explica o autor, nascido em 1967 em Salvador e filho de um pai que frequentava a região do brega da cidade, e que o levava para ver de longe, talvez com o projeto de, como acontece com muitos adolescentes, iniciá-lo lá – o que acabou não acontecendo. Mas o contato a distância fez com que ele se fascinasse por aquele universo.

Entretanto, se é uma conclusão fácil de enxergar a de que as sociedades permitem a existência dos espaços demarcados para as prostitutas, há um outro sentido no nome "casa de tolerância" que permite uma torção de significado, revelando uma interpretação ainda mais surpreendente e instigante:

– Ao mesmo tempo, essas casas são "de tolerância", porque dentro delas há regras morais para garantir a tolerância daquelas mulheres marginalizadas.
E esse talvez seja o grande dado sociológico/antropológico da pesquisa do comunicólogo: a cafetina é, antes de tudo, um ser moralista.

– É uma forma de, ao mesmo tempo, manter o poder dessa figura, mas também de manter as relações entre as prostitutas, e entre estas e as cafetinas, sem conflito – explica Maggio.

Introdução metodológica antes de prosseguir, então: a monografia de Maggio, defendida em 1997, queria criar o que ele chama de "espaço de escuta". Na prática, queria fazer entrevistas etnográficas: ir aos bordéis, entrevistar a dona da casa, conhecer sua rotina, observar o cotidiano, ouvi-la, tudo anotar.

Ao final da pesquisa, ele havia falado com oito cafetinas baianas, de Salvador e do interior do estado. A todas, deu voz, história e sentido. No livro, cada uma ganha um capítulo.

E o interesse nessas mulheres se justifica não apenas por mostrar que as cafetinas não são todas a Maria Machadão, dona do Bataclan, bordel do romance Gabriela, de Jorge Amado, notabilizada sobretudo pelo personagem da telenovela de mesmo nome (na verdade, uma ampliação do personagem do romance, apenas um vulto para Jorge Amado): uma mulher forte, amiga dos poderosos e que, de um lado é uma "grande mãe" para as meninas e, de outro, resolve as coisas "na ponta da faca". O olhar de Maggio se justifica como se explica em qualquer bom estudo de ciências sociais a escolha de um objeto: além de mais carne e osso do que clichês, as cafetinas de Maggio são mais complexas e revelam mais sobre o mundo que as cerca do que apenas sobre suas rotinas. Conversas... não é apenas uma reportagem – no sentido de que não é apenas a abertura de portas para um mundo desconhecido do leitor. Trata-se de uma pesquisa de grande valor sociológico, por tocar em temas como gênero, poder e, sobretudo, como disse, moralidade.

Sábado, 18 de Abril de 2009 - 00:00

3 comentários:

Ionara disse...

Sensacional, vc merece. Obrigado por me oferecer essa leitura

Emilio Sá disse...

Parabéns, Sérgio. Mais do que justo. Li e reli o livro. Fui tocado e sensibilizado por vc. Abraços

Sagall disse...

Sem dúvida, uma pesquisa esclarecedora sobre um mundo que a sociedade finge que não vê. Parabéns